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Mostrando postagens de 2010

Lacuna

Nem sempre o que te falta me completa.
Nem sempre dá para a rua a porta aberta.

Nem sempre a sua busca é o que me caça.
Seu olhar, nem sempre é o que me abraça.

Nem sempre. Nem sempre.
Nem sempre a tua falta me completa.

Nem sempre a minha falta é completa.
Tenho bons motivos para não ser metade.
Para não querer metades.

Há sempre uma palavra
entre meu olhar e o horizonte.
Um oceano.
Talvez eu busque em mim mesma.
O que é seu é sempre insano. Não está em mim.

Nem sempre o que te falta me completa.
Eu não sou o que você procura.

Nada de mim falta em você.

Insana idade

Atrás da minha face esconde o ouro Meus olhos brilham em meio às carrancas Estrelas cintilam na inútil resposta Do provocar desta alma amostra


Querida realidade mundana Fazes de mim uma prova contrária Do poder gigante do meu sorriso Torto, livre, talvez até lindo por isso


O sol insiste em nascer para vocês O batuque repete todos os mesmos sons A dança segue e os passos dão em salsa E o meu coração hoje valsa


Oh vida estranha destes estranhos Fito e tento em vão compreender São tantas e tão iguais são Santo, santo, perdoai este povo são

Mudez Parte II

A falsa calma da tarde de domingo invade as cortinas brancas do quarto de antigas paredes.
Balança perigosamente o tecido leve que roça seu ombro com uma delicadeza ameaçadora.
Um arrepio estranho de presságios irracionais percorre a pele clara de seu pescoço.
Esta presa inerte pressente a brisa que entra pela janela assoprando o calor angustiante de masmorra úmida.
A falsa calma da tarde de domingo invade o quarto quase escuro da penumbra que vem de fora.
Ou será de dentro?
Ainda há luz lá fora afinal.
Mas ela não se levanta. A cortina que balança é o movimento. O seu movimento.
Enquanto espera, escreve.
É só o que pode fazer.

Ave louca

Ave louca
não sabia ao certo
o que era certo.

Decerto.

Sabia que não podia não querer  o que não queria.
Que não podia querer o que queria.

Não queria manto
nem teto
nem ovo,
nem ninho.

Não queria o pai,
nem o filho
não queria a mãe,
não queria a filha.
Ela. Ilha.

Queria a asa
e o vento
pouca pena
e movimento.

Queria a largura do espaço,
o vácuo
o salto,
o impacto.

Queria a vida.
A vida sem o tempo.
Queria a vida. Sem o laço do sustento.
Sem o laço que sustenta.

A dor do voo também queria
queria poder
não querer voltar.

Ave louca.
Sem juízo.
Deixas o paraíso?

Para não padecer
eu deixo.
Eu deixo o paraíso.

Ave louca.
Sem maçã, nem Adão.
Teu canto rouco
convida ao voo
para outra direção.

Naturalidade

O sabor do exílio amarga as papilas
e a saudade aperta o quanto pode.
Os rostos insistem em aparecer
e os pensamentos não dispersam.

Quanto vale cada dia longe de você?

Vejo meus filhos herdando esta dor
Minhas cicatrizes abertas no tempo
 que passa aqui tão fria e vagarosa
 enquanto a vida lá revigora e voa.

Quanto vale cada dia longe de você?

A dança dos anseios me deixa sem par
A luta, o luto, a ganância e o amor
Fuga incessante do seu entardecer
Meu querido jardim sem a mais bela flor.

Quanta vida cada vale rouba-me de você?

Provável resposta para uma pergunta de criança

Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho. Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá  os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação. Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lu…

ATOPIA

Cansado do itinerário tão variável e intenso
o cosmopolita sem rota descansa.
Os pés e a vista não têm chão nem horizonte certo
O lar perdido entre o monte ereto, o deserto reto, a noite sem fim.
O dia começa e lá está ele. Estático e cansado. O movimento sem fim da viagem eterna o persegue entretanto. Onde é seu lugar?
A memória não traz um cheiro peculiar. A infância não tem o quintal sagrado.
O que o habita é o mundo. Sem cercas, nem muros, nem nada.
No entanto, está proibido de entrar,
no mundo que é seu. No mundo do outro.
Cidadão sem pátria,
não entende o véu. Nem a tinta no rosto, nem as mãos postas em prece, nem a tanga ou o terno.
O mal do outro é eterno.
Dentro da casa, ou depois da cerca,
o mal do outro é eterno.
Miseravelmente, o cidadão universal esbarra na sua própria sina.
Sua pátria sem fronteiras não tem chão para um coração que nasceu aqui e viajou.
É preciso não nascer aqui.
Aqui não existe mais. Apenas sua cicatriz, em carne viva,
não o deixa descansar.

Não leia, porque não e3screvii

Enquanto espero, aperto as teclas sem pensar muito. Permito que os dedos corram, escorreguem, se esbarrem na estreita fileira de letras que se espalham  por debaixo da palma da minha mão. A poesia coça. Roça a pele fina das falanges. Não se mostra inteira. O pulso já dormente, solta palavras, que são apenas palavras. Não dizem. Ao menos, não dizem para mim. Queria dizer ao e os dedos teclam ai, repetem letras, pulam outras e, ao não sair, a palavra vira ai. Ai...ai... ai....Que texto besta. A mão não é a cabeça. Ou é? Onde está a palavra? Onde está a palavra que quero? Onde está a palavra que busco? O dedo não acha. As letras sobram onde as palavras faltam. Hoje não deu. O texto não foi. Entretanto, ei-lo aqui. Outro. Mas ei-lo aqui.

Estes Dias - Parte 2

O ego alimenta eu e mastiga
O ego devora eu e instiga
O ego fita
Acirra
Ira
Ora
Dobra
O ego sobra
O ego engole eu e dobra
O ego não sacia e extrapola.

Eu: um delírio

Existir é absurdo. Eu não existe mais - e o pão está na porta. Eu não existe mais - e mais cinco refinarias construídas. Eu não existe mais - e vão eleger novo presidente. Eu não existe mais - e o sol está lá fora. Eu não existe mais. Apenas ele agora. A terceira pessoa, referida. Vista de fora. Apenas ele existe, a palavra oca e murcha, o verbo, o que restou do eu (que foi?) ele também já agonizante. Existir é absurdo. A poesia é absurda. Se ao menos planta, bicho,  corpo reincorporado na terra. Mas, não. Gente. Absurdo. Lacuna indissolúvel para outros eus, enquanto forem. Eu não existe mais. Eu: um absurdo.
(Adeus, Moreno: Lacuna indissolúvel. Dói.)

Estes Dias

Dama Hipocrisia aponta na sala
E todos a olham, a seguem
Caminha firme e exclama forte
-Olá à todos! Diz sorridente


Atrás de cada máscara uma pessoa
Um padrão disseminado, assumido
O norte foge a verdade, caçoa
O homem prossegue, fingido


Pessoas agora são números
Olhares são meios de repreender
O ego se alimenta vorazmente
Pois tudo dá pra comer


O tempo é de vida vazia
E valor se pode morder
Vale muito olhar para trás
E voltar a aprender a viver.


Dama hipocrisia se despede
Seguida por todos da sala
Caminha firme e confiante
-Amanhã vejo todos vocês!

MARIAS

Não me reconheço em ti.
Nem na pureza cândida,
nem na doçura dos lábios,
nem na beleza da pele
nem na brancura marmórea da pele.
Nem mesmo o manto que poderia também cobrir-me.
Parece-me curto demais para este corpo de hoje.
Não me reconheço em ti.
E por isso, não me reconheço em mim.
A pedra, a pele, a palavra ave: em mim uma caricatura.
Dessemelhantes no tempo, no modo.
O que é mesmo a virtude?
Talvez a dor nos aproxime. Talvez a dor. Talvez.
Amores

São de amores, de amores,
que cantam os pássaros.
Que sopra o vento, no alento,
na brisa, na vida, nos cantos.
São de amores, louvores,
que sigo, que digo, que sou.
São de amores, amor,
anunciam os trovadores,
da vida, que segue, em nós.
Era festa. Nas roupas, nos sorrisos, no som eclético de conversas, risadas. Cheiro de quermesse cor de rua estreita. Minas interiores. Era festa nas ruas, nas janelas. Tantas pernas, e braços e bocas. A fumaça com cheiro antigo de carne queimando... A fumaça embaçando a cidade e o tempo que deixava suspensa a vida. A padroeira suspensa no andor... A procissão marcha. A marca. A vida. Piedade. A fumaça da barraca que embaça o tempo, que suspende a vida. A vida que só recomeça na preguiça de segunda.
Mas até que a segunda traga no amanhecer a sobra estranha desses dias, ainda é festa. A roupa é nova e cheira bom o batom. E o perfume ainda não se evaporou no suor que impregna a dança dos olhos. A alma pinga adrenalina sensual nas luzes da cidade e contagia os corpos que enchem as ruas, normalmente tão vazias nas manhãs de terça, quando os cães dormem sob o sol que espalha preguiça nos bancos dessa mesma praça. Pública.
Na terças e quintas e sextas... Trabalho incansável…

Imagem

Sou barroca de nascença
De almas múltiplas
Tríplice Aliança.
Réplica
Súplica
Imaculada.

Minha trindade não é santa nem eterna
Movimenta-se como as areias do Deserto
Deserto...

Máscaras tortas revelam minhas verdades contraditórias.
Sou de barro.
Maleável
Tridimensional.
Metamórfica.

Peco por não ser única. Eu mesma.
Trindade...

Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo
Tende piedade de nós.

Piedade

Pertencer:
ser de.
Como o pólen,
a semente,
a asa
sou extensão de ti.

Penumbra

entretida estava aberta a porta.
Pela fresta se insinuava uma luz semimorta
Nem entrava, nem saía.
Me deixava sem saber se era noite, se era dia
E a claridade torta,
alheia à minha agonia
brincava com a porta
que não se decidia.
Se se abria, escondia todo o dentro
o dentro que sempre doía.
Se se movia,
eu só via lá fora
A claridade embaçada do dia.
O ferrolho antigo, pesado e inútil
enferrujava morto a madeira fria
E eu ficava ali
No meio oco da travessia.
Sem saber se ficava
ou ia.

Mudez

Céus e terras passarão
minhas palavras também.
E eu que não falo
não calo.
Escrevo.
Esta página branca é um espelho
que me devolve em eco esse meu grito louco.
Seu som insuportável arde em meus olhos.

Céus e terras passarão.
Minhas palavras também.

Para um amigo

E agora, José?
Ficou importante
É poema, não é?
Ficou impotente
Imponente o José.

Perdeu o emprego
Conhece as marés
é forte
bateu
bebeu
morreu
Virou poema, José.

Está bêbado, José
Conhece Cristo,
Platao, Cecília e Russo
Puro delírio...
lúcido.

Não tem amigos
Tem galera
Na maioria das vezes (que lugar comum!)
Está sozinho
Faz piada com sua dor
fingidor.

Cita São Lucas na mesa do bar
Cansado, cambaleia
Não cai
Jamais.
Fala de Morrison, Dylan e Cássia
Para aquela turma do botequim
que não quer saber de política
Apenas sorri com o mundo azul marinho

E você é profeta, parodia
É louco, anuncia
É José e não disfarça
E agora?

Você cheira a whisky e está no poema
Não trabalha e está no poema
Tem insônias, fobias, ataques, delírios
e está no poema
E agora?

E agora, José?
Meu tempo acabou
Já vi seu riso e por trás, a dor
Seu amor
Por Hendrix, Lennon, Simon
Pagodinho
Outro José

Não completou escolaridade
Mas entende tudo de alma humana
É bêbado
José
Sem graduação, nem disciplina

Mas...
Há um brilho que me atrai …

O ser e o tempo

Eu sei que não é mais
sei que agora só será amanhã
e que hoje, é só construção
que se faz sem rasuras

Somente no dia que virá poderá estar pronto o dia que hoje já se vai.
o mesmo que estará sendo construído ainda
o fato é que só existe agora,
esse instante
que já foi.

Na verdade, à soma dos dias, me subtraio a cada momento

O sou
ainda será
Hoje sou apenas processo
construção eterna
que angustia
mas me liberta
da obrigação de ser
Mas antes,
me deixa isenta da culpa
de vir-a-ser
sempre
eu.

Lúdico cárcere

Marginal
é a linha
que limita
Minha língua
minha arte
arsenal
artesanal
marginal
Minha língua
ângulo
célula
rótula
pérola
Código
Marginal
Eu
Marginal____________

Abismo

E no meio de tudo
uma palavra se pendura.
O vácuo a deixa
entre a permanência e a queda.
Fatal é a inércia do dia.