sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Minhas gavetas

 Tenho uma tristeza profunda, 
guardada só pra mim, 
que vez ou outra aflora, 
mas não adianta espiar, 
não pode ser vista do lado de fora!

Fico olhando pra ela,
tentando entender,
procurando as raízes e vendo suas teias,
e não acho nada que me aponte,
nenhum norte que me mostre suas veias!

Tenho uma tristeza bem funda,
que cuido dela sem te mostrar,
não faço barulho e não deixo escutar,
o que ela sussurra quando quer falar
você não escuta e não adianta espiar. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Vou te contar um segredo

 É possível falar do que poderia ter sido? Já parou para pensar em todas as coisas em sua vida que poderiam ter sido, mas não foram? Não digo aquelas que você escolheu não fazer. Não me refiro às opções conscientes, refletidas, pensadas e pesadas. Penso nos pequenos atos involuntários de recusa: o olhar que não sustentou, a mão que você segurou, para que impulsivamente não tocasse outra, parecendo ter vontade própria; o beijo que, por um triz, você não se permitiu; o salto que você não deu, a estrada que não trilhou; a palavra que não disse. Um lampejo de desejo que esteve prestes a se concretizar, mas que ficou apenas no seu pensamento. Ninguém soube. Nem você mesma se permitiu pensar ou sentir, mas que, denso e robusto desobedeceu sua razão e surgiu forte, fora do seu controle. Coisas que ficaram no universo do quase, ações que, por uma fração de segundo, não aconteceram, sabe-se lá por que razão. Censura? Autocensura? Ação inconsciente do superego castrador? Superforçadevontade? Ou por razões mais altruístas, como não magoar alguém, por exemplo?

O que poderia ter sido não se realizou, mas fica encasulado e latente, e tocá-lo, ainda que de leve, pelas vias da memória, faz reavivar a potência de sua existência não concretizada, cuja energia faz esfriar a barriga e eriçar os pelos do corpo. Estranhamente, o que não existiu é capaz de despertar emoções indescritíveis e difíceis de nomear: medo, euforia, vergonha, recusa, culpa, susto... tudo ao mesmo tempo agora! A memória da sensação que poderia ter sido sentida se o ato se consumasse erige embrionária, inteira, explosiva e quente, mas não extravasa. Volta para junto do que não foi, empurrada por forças que a realidade, o cotidiano e a vida que escolhemos não permitem mais que se concretize. Entretanto, sabemos que a lembrança está lá, perdida em algum lugar da memória, que por vezes, é inesperadamente e inexplicavelmente acessada por um estímulo qualquer: um cheiro, uma música, um lugar, um objeto, um pensamento, alguém.

Porém devo repetir: Isso que não foi, não poderia mesmo ter sido. E por isso, é belo. E por isso, comove. Sinto saudade do que não fiz. Há coisas das quais me arrependo de não ter feito. Mas não são dessas que eu falo. Digo daquelas que quase fiz, que meu pensamento quase me fez acreditar que aconteceram, porque senti como se tivessem acontecido. Desejos que cruzaram rapidamente meu pensamento, mas que foram afastados com a mesma pressa pela minha razão. São esses que guardo com estima e os quais, às vezes, me permito reviver e experimentar as sensações que me provocam. O que poderia ter sido me lembra quem sou, de outras que fui ou que poderia ser, ou propõem uma promessa rascunhada de mim. 

O que poderia ter sido não poderia mesmo ter sido e deve permanecer envolto nessa névoa de pretensa realidade. Não dói não ter acontecido. Falo de um alegre não realizado. O que poderia ter sido são muitos. O que poderia ter sido é um tesouro que fui ajuntando em um baú de  pequenas lembranças esparsas. É com ele que brinco às vezes. Procuro as chaves, abro sua tampa abaulada e antiga, seu brilho me cega por um minuto. Levo a mão indecisa em sua direção. Não toco. Fico imaginando textura, temperatura, outras sensações. Torno a fechá-lo, para que sua beleza não se perca. É bom saber que está lá e que vai estar para sempre. Justamente porque só existe assim: em estado de pura possibilidade. @anaribeiro

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Pique-esconde: muito revela o que se oculta

Esse é um texto de memórias. Para que você o compreenda melhor, preciso dizer  de onde venho e de que lugar eu falo. É necessário esclarecer também que os pontos de vista se misturam entre este olhar de hoje e as lembranças de criança. Isto posto, apresento-lhes  a minha origem: brasileira, mineira do interior, criada no seio de uma família branca, católica, com raízes conservadoras. Entretanto, dentro desse contexto, posso me considerar privilegiada. Filha de professores: mãe formada pelo antigo curso normal e pai, pela vida. Ambos me deram, cada um, sua melhor parte, e foi a partir  desse alicerce que fui me construindo.

Desde que nasci, moro na mesma pequena Piedade do Rio Grande. - Sim.  Piedade do Rio Grande... Não é esse nome pura poesia? Era final da década de 1970. Minha casa localizava-se na rua que ficava nos fundos da delegacia. E é esse espaço de vivência infantil o mote principal para essa história. No coração dos chamados anos de chumbo, como ficou conhecida a ditadura militar no Brasil, passei toda a minha infância. Já ouvi muitos por aí  dizerem que não viram essa tragédia acontecer e que a repressão no país é uma narrativa de ocasião. Alguns dizem mesmo que sonham com a volta do Brasil dos "anos dourados", "quando tudo era bom, seguro e perfeito." Muitos suspiram pelas redes sociais. Os tais saudosos da lei e da ordem (impostas sob a força das fardas e dos coturnos); dos costumes conservadores  e da autoridade patriarcal (que escondiam o adultério, a pedofilia, a violência doméstica e a opressão feminina); da pobreza imensa (faltava comida, saneamento básico, acesso à saúde em proporções infinitamente maiores); do analfabetismo, do subdesenvolvimento, da desigualdade gigantesca e do apartheid racial  - naquela época muito maior, e o que é pior: naturalizado e invisibilizado.  

Pois bem. Preciso dizer que  eu também não vi os horrores cometidos nesse período. Ou, pelo menos, não vi no sentido mais literal da palavra,  principalmente porque era só uma criança e pairava sempre uma neblina embaçadora sobre tudo que dizia respeito a certos assuntos e ao universo dos adultos. Conversa de gente grande era conversa de gente grande, embora eu ouvisse muita coisa sem querer. E, diga-se de passagem, eu ouvia muita coisa que me tirava  o sono e a inocência que tanto queriam preservar.


Eram comuns as tardes na calçada depois da escola. Enquanto os vizinhos se sentavam para descansar do dia de trabalho e contarem os casos, as crianças brincavam de roda, de corda, de bola, de pique... Era assim que as pessoas se divertiam antes da internet (e da televisão até... Em tempos de redes sociais é quase inacreditável que isso tenha acontecido um dia, não é mesmo?)

Eu também vivia essa rotina. Na calçada, à tardezinha, a algazarra infantil antes do banho e do jantar. Mas por menos que eu quisesse, estava sempre ali, ouvindo coisas, o que me atrapalhava brincar também. Nunca fui muito boa em brincadeiras, acho que porque sempre estava com um bolo estranho no estômago, preocupada com coisas de adulto... antes da hora.


E durante essas conversas despretensiosas sempre havia os casos sobre a delegacia e também sobre a temida "caixa d'água", que até hoje tenho dúvidas sobre onde ficava, mas que acredito fosse uma extensão do destacamento da polícia militar. Um reservatório desativado para onde, depois da coça, eram levados os presos para passarem à noite. Havia sempre muitas histórias sobre as pessoas que eram presas e o que acontecia com elas... os métodos utilizados para corrigir quem precisasse "dormir no xadrez". Ouvia muitas conversas veladas sobre os gritos que os vizinhos ouviam e as técnicas que os policiais utilizavam para não deixar marcas nos corpos detidos. Os crimes? Na maioria das vezes, eram brigas de rua ou bebedeiras, quase sempre, envolvendo homens negros e pobres. No entanto, o que me causava pavor era o relato dos castigos... Esses sim, eram desproporcionais. E havia um método. Um método militar. Lembro-me dos policiais e de como eram chamados de "maus", em segredo. Seus sobrenomes (geralmente, pelos quais eram conhecidos)  me causam arrepios, ainda hoje. Eu nunca soube direito o que sentir ou o que pensar quando cruzava com algum deles na rua, mas certamente, não era sentimento de segurança ou de proteção o que eu experimentava. Então... baixava a cabeça e seguia. Com medo. Fui colega de turma e parceira de brincadeiras da filha de um deles, durante um certo período. E ficava pensando como seria esse homem em casa. Como seria esse pai, esse marido. Essa marca de insegurança, mesmo com as políticas de humanização da polícia, infelizmente ainda permanecem.

O fato é que a , "a disciplina", o autoritarismo e a violência dos policiais se repetiam na atitude de muitos pais de amigos meus que tinham um "método" também para corrigir seus filhos "rebeldes". Repetiam-se na maneira como muitos homens tratavam suas mulheres, na estrutura da igreja e da escola, na atitude dos professores. E foi através dessas instituições que eu vi a repressão acontecer.  Posso dizer, com tranquilidade que não tenho saudade desse tempo, porque essa aura opressora marcou profundamente a minha infância. Mesmo que não tenhamos sido presos, torturados, perseguidos, a lógica castradora, ameaçadora, impositiva e de censura perpassava todos os aspectos da vida em sociedade, até mesmo, na minha pequena Piedade, onde quase tudo demorava muito para chegar. As cicatrizes dessa complexa rede metodológica de educação da população ainda são visíveis e nos causam imensa vergonha. Esse reflexos estavam na minha família também. Embora meus pais fossem carinhosos e cuidadosos, podia perceber o quanto eram também reservados e reprimidos. Minha mãe, extremamente discreta, não se permitia falar muita coisa. Acho que não se permita mesmo pensar em muita coisa, quem dirá fazer... Era brava, tensa, preocupada, me parecia que estava sempre com medo de perder o controle e de errar com a gente. O sistema a subjugava profundamente.

Mas há sempre uma fissura em qualquer estrutura. Há movimentos e pessoas que simplesmente escapam dessa rede de poder que envolve uma sociedade. Há microluta, ainda que inconsciente.  Posso dizer que meu pai era uma dessas pessoas. Era mais leve. Extremamente observador e reflexivo, sempre gostou de me contar histórias. Primeiro as da bíblia, mas escolhia as que mais atiçavam minha imaginação: Adão e Eva, a construção da Torre de Babel, a Arca de Noé, a peregrinação de Maria, Herodes... mas não dava ênfase à castração, à violência, ao castigo e transformava tudo de uma forma que coubesse  na minha cabeça e avivasse minha imaginação. Enfatizava sempre o perdão e o amor nelas contidas. Além disso, me contava suas próprias experiências de menino e fazia desfilar, de forma muito viva na minha  mente, as figuras de sua infância real e transformava-as em personagens incríveis. Mas o que mais me fazia admirá-lo era sua capacidade de deixar sempre uma pergunta no ar, de me fazer um questionamento que eu não sabia responder e me deixar pensando em alguma coisa por horas e horas. Ele me mostrou que não havia respostas prontas e que uma narrativa podia ter ângulos e avessos diversos. E que tudo, absolutamente tudo, podia ser questionado. Foi meu primeiro professor de Filosofia, eu acho. Sua luta contra o sistema acontecia, primeiro, dentro de si mesmo, e depois, na maneira como nos mostrou a vida e nos educou.

Mas além dele, não havia muita coisa diferente. Todos os outros mecanismos eram repressores o que me transformou em uma criança muito obediente e comportada, além de medrosa e ansiosa. Por outro lado, sempre fui curiosa e muito desassossegada sobre o mundo e as pessoas e também insatisfeita com muitos dogmas, regras e costumes. Entretanto, ao invés de me rebelar,  culpava-me pelo que sentia e tinha medo, até mesmo dos meus pensamentos. 
No início da adolescência, tive consciência das perseguições, prisões, torturas. Tomei conhecimento de um grupo de estudantes presos, dentre os quais havia um piedense, hoje médico e pesquisador reconhecido, mas que carrega as marcas desse período eternamente em seu corpo, violentado por lutar contra  um sistema  autoritário e opressor. E foi assim que comecei a enxergar, ainda  que nebulosamente, alguma coisa.

No início da adolescência, já  no alvorecer dos anos de 1980, veio para a cidade um delegado (quando ainda havia delegados aqui), do qual não me recordo o nome, mas que foi apelidado de  "Cachimbão" por ter sempre um cachimbo entortando a boca debaixo de um espesso e escuro bigode. Tinha a fama de autoritário, pouco gentil, para dizer o mínimo. Chegou para ser  o terror dos que se recusavam a se encaixar na sua cartilha. Pais e professores diziam que foi destacado para por ordem na cidade, referindo-se às reuniões, encontros e ações naturais de jovens e adolescentes. No  meu entender, veio parar aqui porque tinha atitudes retrógradas e saudosistas, que tentavam ressuscitar  uma época  que  entrava em decadência  e que, na prática,  já não era mais aceita nos centros mais politizados. Lembro-me que todos os anos, a escola precisava participar dos tradicionais desfiles de sete de setembro e me recordo que em sua gestão, ele era chamado para ajudar nos ensaios. Ai de quem marchasse fora do compasso, ou colocasse mais força na perna errada, olhasse para trás, ou risse, ainda que por nervosismo. Eu, que nunca tive coordenação motora bem desenvolvida, um fracasso em danças ou esportes que exigissem reflexo rápido, vivia uma situação extremamente estressante, chegando a ter febre ou adoecer de medo, durante a semana de ensaios. Apesar de todo o aparato que construía essa figura, naquele momento, ele já era apenas um resquício da ditadura militar, uma caricatura de um período que havia sido derrubado e que não fazia mais sentido. Em alguns, como eu, despertava medo, mas em outros, provocava riso, deboche e desejo de transgressão. Hoje, comparo aquela figura com os personagens militares malhados por alguns programas de humor, como o Sargento Pincel dos trapalhões ou figuras dos quadrinhos, como "O recruta Zero", por exemplo.

Com a abertura política,  a anistia. Os exilados começaram a voltar. Foi aí que comecei a ouvir sobre a Tropicália, Chico Buarque, Gil e Caetano... Vandré. Somente fui ouvi-los, muito depois de seu tempo de produção, quando voltaram a ter sua música/poesia autorizadas pelo sistema. E somente muito mais tarde, ouvi falar sobre a resistência feminina, seja nos costumes, na cultura ou na militãncia: Leila Diniz, Elis, Rita Lee, Dilma Roussef, dentre outras. Na escola, era nítida a transição. Havia professores de linhas pedagógicas diferenciadas, o que acabava nos deixando meio confusos.  Vários docentes autoritários, ou muito sérios, disciplinadores, adeptos do sistema sob o qual foram forjados. Por outro lado, havia também os que já podiam ser engraçados, além dos questionadores. Estes, oscilavam entre o desejo de estarem na vanguarda da mudança e o hábito de ter que manter tudo e todos sob seu controle. Ainda guardavam - sem que percebessem - o alerta, o medo de falar, e de nos abrir a consciência. Mas apesar do receio, fizeram seu trabalho com paixão, muitas vezes trazendo informações que não estavam registradas nos livros didáticos.  Foi nesse contexto de sentimentos e atitudes conflituosas que fui formada.

Quando ouvia os fatos referentes ao golpe de 64, que na época ainda era chamado de "revolução", eu percebia o tamanho daquele momento histórico, e apesar de ficar profundamente ferida com as os relatos que eu ouvia, eles também me fascinavam. Era um período de reescrita da História, sob a ótica dos que lutaram e sofreram as agruras de um período de exceção, sem liberdade para pensar e falar sobre política, justiça social e outras questões sérias para o ser humano.
Quando alguns afirmam que não acontecia nada ao "cidadão de bem" durante a intervenção militar, referem-se àqueles que não se envolveram ou fingiram não ver, por comodismo, medo ou falta de informação.

Agradeço muito aos meus professores de História, os quais, mesmo que ainda apreensivos, me descortinaram esse universo de luta e resistência. O movimento das "Diretas Já" e a reconquista do direito ao voto foram as coisas mais maravilhosas que pude presenciar. "Coração de Estudante", na voz de Milton Nascimento ainda ecoa lindamente em  meus ouvidos. Vi Tancredo ser eleito e não assumir, Collor chegar à presidência e sofrer impeachment, a festa da Constituição Cidadã, o boom do pop rock nacional, o início da discussão sobre diversidade e inclusão... a era PT e seu sonho de justiça social... mas nada disso me fez compreender muito bem a política. Acredito que essa lacuna em nossa formação é que permite esse movimento cíclico em que ameaças ditatoriais, vez ou outra, acabem nos rondando.


Apesar do caos que estamos vivendo, penso que o momento é pedagógico. Ainda que o fluxo da história seja contínuo e o que vivemos hoje seja fruto de acontecimentos sucessivos e importantes ao longo do tempo, há uma transformação histórica  de grandes proporções acontecendo agora, diante dos nossos olhos. Embora a apreensão ainda ronde meu coração, há também sentimentos (positivos) diversos que ando experimentando. Gosto da sensação de fazer parte dessas discussões, de tentar compreender o momento no tempo mesmo em que ele acontece e de estar sustentando, de alguma forma, a honra de muitos que foram perseguidos, exilados, torturados, ou morreram por acreditarem e lutarem por um país mais justo, igualitário e democrático, que estávamos começando a ver existir de verdade. Há sobreviventes entre esses heróis. Estão, mais do que nunca, vivos e atuantes e é sob a luz que emanam, que vou, ao lado deles, tentando trilhar um caminho que se desvie do retrocesso que teimam em nos infligir.

O delegado Cachimbão está novamente entre nós e sua face é dúbia. Há uma possibilidade real de ameaça à democracia que deve ser enfrentada. Não com o medo que tanto me fez mal a vida toda, mas com a coragem e a resistência necessárias para preservarmos a liberdade e a independência que conquistamos a duras penas. Entretanto, essa ameaça, por outro lado, é uma imagem grotesca de um tempo que não existe mais, representada pela figura anacrônica de um presidente, cujas atitudes parecem fora do lugar, cujo discurso não cabe nesse tempo e não serve para pautar nossas necessidades; um político vaidoso, egoísta, preconceituoso, covarde. Um ser que evoca a tortura dos dissidentes e a eliminação dos opositores. Não é um liberal conservador, como tenta se afirmar, mas sim, uma versão tupiniquim e esquálida do fascismo que volta a assombrar o mundo. Uma figura tosca e mal acabada,  que nos faz rir de nervoso, que tenta nos tirar o sono e ser nosso pesadelo. Mas eu não tenho mais medo, e posso dizer para a menina que ainda me habita: "Pode brincar agora. Ainda é tempo. E depois, durma em paz.


sexta-feira, 15 de maio de 2020

O destino é macho. Acha que manda. Pensa que domina. Espera obediência. Exige submissão. Apaga as vontades. Invisibiliza o arbítrio. Diz sempre que foi ele que deu a palavra final. O destino sempre foi usado como instrumento de opressão feminina e a sociedade, mais especificamente a sociedade ocidental, sempre puniu quem escapava dele. Através de instituições e mecanismos diversos, amparada pela religião ou pela ciência, queimou bruxas, internou histéricas, perseguiu as que ousavam não ser filhas obedientes, esposas submissas, mães dedicadas... 
O destino tenta rasurar os desvios, as exceções, as veredas. Embora, muitas vezes ignoradas,  há vontade, rebeldia, coragem, resistência. Há luta. Substantivos femininos capazes de romper qualquer amarra. Na marra. E são essas transgressões ou transgressoras, que jogaram e continuam jogando luz sobre uma verdade inquietante: não há predestinação possível quando se trata de seres humanos. Nossa identidade, nossa sexualidade, a maneira como vemos o mundo, o que desejamos para nós mesmas, como lidamos com nossos corpos, nossos afetos, nossas angústias são prerrogativas incontroláveis, não rotuláveis, não padronizáveis. E é isso que move o mundo e faz caminhar a humanidade.
Ao colocar-se como algo fora de nós, comandado por forças sobrenaturais, o "destino" parece fora do nosso controle e só nos resta então aceitarmos nossa sina. Obedecermos. Essa aceitação arrefece nosso desejo de lutar e mina nosso ânimo diante da vida. 
A transformação pode começar pela palavra. O vocabulário que constroi nossa rotina, constroi também nossa realidade, nosso comportamento e nossas ações. Então, vamos experimentar substituir destino, por escolha. Que tal?
Seu destino, mulher, é ser escolha. Seu destino não é ser mãe. Não é seu destino ser doce, equilibrada, sensata. Seu destino não é obedecer, submeter-se, subjugar-se. Não é ser subempregada, violentada, impedida, calada. Também não é ser linda 24 horas. Não é ser perfeita, seja lá o que isso signifique para você. Seu destino, não é, nem mesmo, ser mulher, se não quiser (ou não puder). Permita-se ser escolha. Embora saibamos que fazer escolhas não é uma tarefa simples. Além de nem sempre serem conscientes, nossos desejos podem ser difíceis de serem concretizados, pois podem estar vinculados a fatores psicológicos, sociais, econômicos, políticos e/ou culturais. Então, podemos dizer que escolher pode ser uma possibilidade mais viável para algumas mulheres, do que para outras. Mas o que importa é ter a consciência de que escolhas são possíveis, pressupõem um(a) agente e podem mudar destinos. Saber disso nos dá poder. 
Seja mãe. Porque quer. Seja dona de casa. Porque quer. Seja empresária, porque quer. Seja santa ou puta. Porque quer. Não deixe que o discurso machista dominante diga que o papel que você deve desempenhar é o que o destino lhe reserva, ou justificar as misérias de sua condição feminina como vontade de deus.  O destino é (só) uma palavra, uma história ruim. Se é narrativa, você pode recontá-la, subvertê-la, desconstruí-la, revolucioná-la. O destino não é seu dono. Ninguém é. Reconte essa história a partir de sua palavra de mulher, a partir do seu horizonte feminino. Muitas morreram e morrem para que você possa optar, ser, construir-se, avançar e recuar. Sem medo. Escolha assumir as rédeas da sua vida e mude a rota e o itinerário. E então, o destino será apenas o lugar onde você se propôs a chegar.



domingo, 6 de janeiro de 2019

Azul e rosa, príncipes e princesas - e o sapo

A polêmica das cores movimentou as redes sociais durante a semana. A afirmação da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de que "meninos vestem azul e meninas vestem rosa" provocou uma onda de memes e críticas na internet, assim como de discursos acalorados defendendo e/ou justificando as colocações feitas por ela.
Muitos acham que a Ministra defende o natural e o óbvio. Irritam-se com as críticas que foram feitas e a defendem, justificando que ela fez uso de uma metáfora, ou seja, que ela não quis dizer exatamente que meninos devem vestir azul e meninas devem vestir rosa, mas sim que meninos devem se comportar conforme  o que é esperado para uma pessoa que nasceu com o sexo masculino e meninas devem se comportar conforme o que é esperado para pessoas que nasceram com o sexo feminino. Sim. Todos entendemos que é mesmo uma metáfora e uma metáfora que quer significar exatamente isto: todos e todas devem se comportar dentro dos padrões da heteronormatividade, ou seja, tudo aquilo que saia fora desta curva é considerado "anormal".
Pois bem, a indignação de muitos outros e outras é justamente contra este conceito. Ao dizer que meninos vestem azul e meninas vestem rosa, a pessoa que supostamente foi indicada para defender os Direitos Humanos, ignora milhares e milhares de pessoas que não se identificam dentro dos padrões sociais estabelecidos. Digo padrões sociais, porque a identidade de gênero não é natural como querem nos fazer crer. Pelo menos, não é natural no sentido de que nascemos com a identidade de gênero que socialmente esperam para o sexo que carregamos. Se fosse tão natural assim, não haveria a necessidade de se reafirmar o tempo todo a identidade masculina para os meninos ou feminina para meninas. Não seria necessário se definir cores, brinquedos e comportamentos "adequados" para cada um ou uma, já que naturalmente nasceríamos com as características próprias esperadas para cada sexo. Ao contrário, o que vemos são pais impedindo que (principalmente meninos) usem determinadas cores, produtos ou brinquedos, com muito medo de que passem a ter um comportamento diferente daquele aceito socialmente.
Negar que haja outras identidades além do binarismo homem-mulher é lançar na marginalidade um número enorme de pessoas. Reforçar esse binarismo e demonizar outras identidades, aí sim, é doutrinar dentro de uma ideologia de gênero machista, opressora e intolerante que incentiva e permite violentar e matar todos os dias, as chamadas "minorias": mulheres e população LGBTI.
Por outro lado, um Estado que reconhece e acolhe todos e todas, sem exceção, é um Estado que fomenta o respeito à diversidade e a tolerância.
Menino veste azul. Menina veste rosa. Afirmações complexas e culturais e que precisam ser discutidas, já que há muitos meninos que não "vestem" azul e muitas meninas que não "vestem" rosa, por mais que as regras ditatoriais da heteronormatividade queiram impor. Afirmativas como estas, feitas pelas pessoas que estão gerindo o país e que se dizem nossos representantes contribuem para se naturalizar a violência que tem sido perpetuada ao longo dos séculos.
O que se busca é o respeito mútuo, o reconhecimento do outro, a tolerância. O mínimo que o Estado pode fazer é reconhecer  estas diferenças e contribuir, de alguma forma para que todos e todas possam viver em paz. 
Nesse sentido, é muito séria a demonização das escolas públicas. Como professora digo com muita tranquilidade que tudo o que buscamos é combater o ódio e cultivar a tolerância. Procuramos aceitar as peculiaridades individuais e ajudar nossos alunos a se aceitarem e aceitarem o outro como são. Apenas isso.
O mínimo que se espera de um governo que quer revolucionar a educação é que venha nos conhecer, conhecer a escola, estudar nossos currículos e programas, conversar com nossos alunos e, sob um viés democrático, iniciar um diálogo respeitoso para que a mudança então se estabeleça. Mas tudo que vejo são medidas que estão sendo tomadas sem conhecimento de causa e a partir de pressuposições absurdas.
Quando o Estado diz à sua população que a escola propaga uma "ideologia de gênero" maquiavélica, que subverte, confunde, destrói a identidade das crianças e adolescentes  e coloca os professores como doutrinadores diabólicos, ela coloca toda uma sociedade contra a escola e seus professores. Essa é uma ação perversa, pois somente contribui  com a desvalorização que essa instituição tão importante vem sofrendo nos últimos anos.
Precisamos de apoio, diálogo, formação continuada, infraestrutura. Precisamos que creiam em nós. Precisamos de um governo que seja nosso parceiro e não nosso inimigo. Somente assim, juntos, poderemos construir um país mais justo, solidário, com equidade e respeito. Sem a escola (ainda não há) futuro possível. Um país que se coloca contra ela está fadado a se autodestruir e, dificilmente, conseguirá se reerguer.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Convite

Gosto de redes sociais. São portais de possibilidades infinitas e isso é incrível. Entretanto, acho que temos aproveitado mal esse espaço. Estes canais virtuais me lembram as  ruas das pequenas cidades do interior, por onde desfilam os senhores de bem, as esposas respeitosas, os bêbados, as prostitutas, as beatas, as velhas fofoqueiras... as "novinhas", os moleques... Assim como lá, tuíta-se de tudo: política, religião, futebol, sexo, vida alheia. Não raro, há mal entendidos, conversinhas, dedos apontados. E há as velhas da janela, que tudo observam, julgam, se horrorizam e maldizem. Algumas dessas redes funcionam como as velhas colunas sociais dos "antigos" (?) jornais: fotos glamourosas (reais ou não) legendadas por eventos infindáveis. Enfim, acho que do mundo real para o virtual  não muda  muita coisa afinal, já que somos os mesmos seres -  às vezes humanos, às vezes desumanos de sempre.
Há alguns anos, criei esse blog. O objetivo era postar textos poéticos que me arriscava a rabiscar (sem grandes pretensões). Mas as redes sociais, como grandes e movimentadas avenidas, acabaram me seduzindo e abandonei - por um tempo - essa casa. Por um tempo, fui viver na rua. Curiosamente, não encontrei espaço de diálogo. Os grupos continuam fechados e, às vezes, intransponíveis. Não consegui furar a minha bolha. Então, me senti perdida, falando para as paredes.
 Agora senti desejo de voltar. Depois de ter perambulado por aí, retorno com mais bagagem para esta casa e tento reabitá-la.
Se você também quer descansar um pouco dos letreiros, da novidade sem fim, do trânsito louco e da necessidade incessante de tudo ver, entre. Venha me fazer uma visita.
Minha intenção é chamar sempre para uma conversa qualquer e tentar provocar uma resposta, uma discordância, um acréscimo...  Mas que a gente possa se ver e se ouvir com calma e pelo menos, pelo tempo de um café. Qualquer passante será sempre bem-vindo, desde que esteja disposto a gastar uns poucos minutos a mais de seu tempo para fugir do lugar tão comum do "ouvi dizer", da fofoca maldosa, do telefone sem fio, das fake news.
Podemos começar discutindo a polêmica das cores. Embora, muito possivelmente, haja discordâncias, acho que esse assunto pode render uma longa e boa conversa.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

A tela

Dentro da tela, a tela
e atrás.
antes e depois do olho.
do meu olho,
do seu olhar.

Quantas são todos os dias?
O que me veem?
te falo, me fala, nos fala, falamos dela.
No almoço
no copo de café
enquanto durmo, ao meu lado ressona, sussurra imagens deslizantes loucamente coloridas que me invadem os ouvidos, os sentidos
Que sentido faz?

Que sentido faz,
se a tela me ocupa o colo do filho
que mama os flashs loucos desvirtuados?
E não me cobra mais meus mimos?

Ela me faz companhia
me distrai na insônia
me desperta de manhã
É meu espelho
meu guru.
É meu guri.

Foi feita para bastar-se-me.

Mas eu vejo um buraco negro ameaçando essa relação.


Minhas gavetas

 Tenho uma tristeza profunda,  guardada só pra mim,  que vez ou outra aflora,  mas não adianta espiar,  não pode ser vista do lado de fora! ...