Hoje?
Hoje é nó na garganta.
@anaribeiro
Todas as canções de amor eu cantarei para mim.
Agora eu cantarei para mim todas as canções de amor.
Cada palavra de afeto e de saudade
A paixão, a traição, o ciúme, o ódio cego.
Cantarei a humilhação, a falta de amor próprio.
O pedido de perdão.
Darei todas as segundas chances. E não contarei a ninguém.
Direi tudo para mim mesma. Ouvindo minha própria voz como se a ouvisse pela primeira vez.
Deixarei cada nota roçar na minha garganta como arrepio na pele, rastilho, caminho, rota de fuga.
Depois, silenciosamente, experimentarei - com o coração acelerado - o sentimento que vier quando me vir nua e pronta.
@anaribeiro
Definir as coisas como quem tateia
Sentir a palavra na carne
Tocar-lhe
Colocá-la na palma da mão, fechar e abrir os dedos, cheirá-la, olhá-la de banda, de cá e de lá
Sentir sua textura improvável, imprevista, mutável
Preparar-se para enfrentar sua fúria, seu humor instável.
Preparar-se para o beijo urgente que lhe tira o sangue e o fôlego
Ou melhor, não se prepare
Não se arme
Deixe-a vir
Pegue-a com suas mãos isentas
Permita que escorra entre seus dedos
Permita que se vá, que flua, que se transmute, que se solidifique, que espete sua pele ou que atravesse o seu peito, ou que lhe queime, ou que lhe acaricie suavemente. Somente deixe.
Seja o corpo em que ela vai se materializar e depois, deixe-a ir, assim como veio.
Se ficar o perfume, um pedaço do vestido, o sangue no seu lábio, mostre-o ao mundo.
O pote de sal sobre a pia está aberto.
Sentada aqui,
desse lugar onde estou, posso ver que está aberta sua tampa vermelha.
Daqui, da ponta da mesa, vejo que tem uma colher dentro do pote de tampa vermelha . Uma colher com o cabo de madeira, pendente para o lado.
Até então, antes de estar aqui sentada, nesse descanso corrido das seis horas, banho tomado, cabelo cheirando a shampoo, não havia reparado.
No tamanho da cozinha, no pote de sal, naquela colher, em sua matéria gasta, pensada para não queimar a mão.
Mas sentada aqui, na ponta pouco visitada dessa mesa tão comprida, reparo.
Sempre há tempo de se olhar por outro ângulo.
E tornar a ver.
@anaribeiro
A tua vida ajuda a tecer o tempo
Tu és
Tu és a que foi e a que virá
És mãe e avó
Tu geras e regeneras
És neta. Bisneta. Tetravó.
Sentes o cheiro? Tateias a cicatriz? Esse gesto? É não é teu.
És.
Tu és
Tu és viagem
Tu és passagem
Tu és passagem dessa língua arcaica para o teu símbolo, para o teu texto. Tu podes narrar-te agora. Imaginar-te. Recriar-te. Se queres. Mas não podes fugir das cores e das linhas, das vozes que ecoam pelos séculos.
Mas tu és.
Tu és eternidade.
@anaribeiro
Existem e andam por aí os mesquinhos, os idiotas, os cruéis, os fracos, os covardes; os racistas, os misóginos, os machistas, os guardiões bíblicos da culpa e da espada.
Sempre estiveram sobre a terra e habitaram entre nós.
O problema é que todos são elegíveis, e chegam perigosamente ao poder. Não há história que impeça. A humanidade, desde sempre, flerta com o demônio e se deixa seduzir.
Parir o mal eternamente. Eis nosso destino.
O céu ao alcance é a hecatombe. O apocalipse.
Por isso Judas e Pilatos.
@anaribeiro
Todo mundo vai morrer.
Mas ninguém devia morrer de câncer.
Porque de câncer não se morre... se vai morrendo...
O gerúndio como o grande mal.
se vai morrendo:
de doença, de tristeza, de desengano, de raiva, de resignação, de despedida todos os dias,
de acordar e ver que acordou mais uma vez, de esperar, de ter esperança, de não ter esperança.
Não é justo com a vida que resta esse cansaço de guilhotina à espreita.
@Ana Ribeiro
Seu nome na minha boca. Macio e doce na aspereza da minha língua. Ao dizê-lo, te construo, E te faço imagem e semelhança do amor que tenho....