terça-feira, 31 de maio de 2011

Voyeur Parte II


A câmera, a luz, um click.
Nada escapa aos olhos: velozes e furiosos.
Na tela, no vídeo
Na ponta da sonda
No catéter.
A biópsia e autópsia.

Raio X, ultra som
o laser.
tomografia, cintilografia, ressonância.
Magnética é a imagem que acena.
Que entra em cena. Que encena
Imagem cênica, performática. Atrai e engana. Trai.

O homem e suas intermináveis invenções. Subtrai-se de suas vestes, de sua pele, de sua superfície. Desdobra-se expondo-se todo, pulverizando o segredo privado  que, guardado a sete chaves, mostra-se escancaradamente e não choca. Não mais do que durante aquele segundo em que as cortinas se abrem. Não há mais segredo. O segredo não faz mais sentido. Um eu que não se mostra é um eu que não existe.

O homem é sua própria imagem.
Olha para si e não se vê.
Instrumentaliza-se. Equipado sai em busca.
Plásticas, lipos, peelings.
Próteses.
Não há photoshop que mascare sua dor. A dor incansável de buscar o invisível. Aquilo que se ausenta da célula - milhares de vezes ampliada - , que foge do olho físico ou mecânico. Onde a sonda não alcança.


Porque não se vê, mostra-se. Nu. Do avesso.
É todo fora. Não há mais dentro que não se veja.
Estamos expostos. Para sempre expostos. Ao médico. Ao público.
O público e o médico: degustadores esfomeados deliciam-se  com o íntimo, o intrínseco. À mercê dos olhos  que nos vigiam de todos os lados. Os olhos dos outros e aqueles instalados por nós mesmos.

Exausto, o ouço (o homem ) segredar:
- Os olhos,
Fechá-los-ei um dia.
Espero descansar e não ser
exumado de mim.
@Ana Ribeiro

terça-feira, 24 de maio de 2011

Voyeur


A perna, a anca, a virilha, o púbis
o umbigo, a coxa, a cintura, o seio,
o peito do pé, a veia da mão, os braços,
o dorso, o ombro, o glúteo, o rosto.
O rim, o fígado, bexiga, útero,
testículos, ovários, pulmões, vesícula
coração, intestino, estômago e cérebro
o baço, o pâncreas, o apêndice, o reto
o tálamo, a uretra, a íris, o tecido.
O feto.

O corpo exposto
Na pele do rosto
No dentro do osso.

É preciso ver tudo
a qualquer custo.

O olhar ávido atesta:
Basta-nos ver.
(Ver sem parar.)
@Ana Ribeiro

quarta-feira, 4 de maio de 2011

NO FUTURO




No futuro não viveremos em redomas, nem vestiremos roupas sintéticas, capacetes bizarros ou nos comunicaremos por telepatia.
Penso na evolução como uma espécie de retorno. 
Quanto mais sofisticados se tornarem nossos mecanismos cerebrais, mais nos tornaremos parecidos com nossos longínquos ancestrais.  Detalhe: Por opção.
Deixaremos de ser sedentários.
Estaremos em contato maior com a natureza.
Comeremos apenas para sobreviver.
Não poluiremos.
As teorias médicas e científicas mais modernas apontam esse "modus vivendi" como receita para uma vida longa e feliz.
Viveremos em bandos, cada vez menos isolados.
Vamos nos organizar segundo as necessidades do grupo e não segundo nossos próprios interesses.
Poderemos andar nus se quisermos.
Não consideraremos o outro um estranho inferior: porque é fêmea, ou macho,  ou porque não é fêmea nem macho; possui pêlos mais claros, ou  mais escuros, ou não os possui; não seremos  rejeitados, temidos, injustiçados, abandonados ou  violentados seja lá por que outro motivo estranho qualquer. 
Não haverá gênero ou raça ou dinheiro que nos torne desiguais por causa de nossas diferenças.
Raça nenhuma. Nenhum gênero. Senão o humano.
Dividiremos a terra e a água.
Procuraremos a cura na natureza.
Protegeremos nossa cria a qualquer custo.
Construiremos armas menos letais.
Baniremos as armas.
Deus será algo como o entrelaçamento entre eu e o universo.
Comungaremos com o universo mais uma vez. Porque escolhemos assim.
A única diferença que talvez  (talvez) exista entre nós mesmos e aquilo que a arqueologia de nossa história nos revela, será a consciência do amor que temos uns pelos outros.
Demoramos milênios para compreender o que estava bem diante do nosso nariz.
Estamos evoluindo?
Quem sabe.
@Ana Ribeiro

quarta-feira, 27 de abril de 2011

MEMÓRIA DAS COISAS

                                            

PEDRA, CASCALHO, ESCOMBRO, ESTILHAÇO.
CACO, MIGALHA, RESÍDUO, PEDAÇO.
FRAGMENTO,  POEIRA, FARELO, TRAPO.
TUDO SE REDUZ.
CINZA, PALHA, CISCO, CONCRETO.
EU, VOCÊ, LONGE E PERTO.
NADA NÃO EXISTE.
TUDO É RESTO.
@Ana Ribeiro

quarta-feira, 6 de abril de 2011

o Breu

A escuridão nos acolhe como um berço
Silêncio que sussurra, aguça os sentidos, liberta a mente
O breu fala por si, impõe-se, contorna-nos.
O respiro sobe e os olhos vão às mãos
Cheira medo, descoberta, aflição, desejos
Provoca-nos vida, revida, susto!
Espreita-nos os calos, calo, mudo, refúgio.
O escuro engrandece qualquer centelha.
No preto a diferença se assemelha.
A maquilagem não diz mais nada
E o sorriso nasce antes na imaginação.
@Ana Ribeiro

sábado, 26 de março de 2011

O retrato

De um lado da parede, a moldura antiga protegia a face jovem da menina. Olhos doces, expressão inocente. Seu vestido branco, parecia pintado pela imaginação do artista. Lábios sem sorriso insistiam em levar meus olhos para os da menina, recém nascida para a minha observação.   Lábios sem sorriso, que me levavam para dentro. Sem sorriso os lábios, os meus e os dela.
À sua esquerda, outra moldura. Seu marido, ainda moço, guardava-lhe o lado. Já seriam um casal naquele dia em que o retrato fora tirado? Em preto e branco, as figuras guardavam um quê de sonho.  De irrealidade. É certo que existiram. Foram mesmo marido e mulher. Tiveram filhos. Os mesmos que os penduraram ali. Sobre o aparador, guardiães póstumos da mesa de jantar.

Na outra parede, um porta-retrato  moderno juntava os dois. Agora ligados por um passo de valsa. Na foto colorida, o glamour de uma já longínqua noite de festa. Eram um casal agora . Um casal há mais de cinquenta anos. Os cabelos brancos dela. Os dele, nem tanto ainda. O olhar duro dela. A firmeza da mão que segurava a dele. Os lábios severos apertados, após o treino de uma vida para se tornar a mãe  que construiu o pai. E aquela casa. Onde teria se perdido aquele olhar doce da menina que me observava do outro lado? 

Os pares se olhavam. Não é possível saber se dali onde estavam podiam se reconhecer.
A sala era a  mesma. Que os viu de longe e de perto. Que os ouviu sussurrar, sorrir, chorar, ralhar com as crianças, oferecer doces e quitutes, ouvir das visitas as histórias de casamentos, doenças, falecimentos. A mesma sala. Que viu aqueles olhos se modificando junto com a vida. Teria sido feliz? Teriam sido felizes? Não há outra imagem unindo as duas pontas. Havia apenas a de antes, e aquela, de muito depois.

A sala agora emoldura seus rostos. E suas vidas. Ainda é guardiã do tempo. Aqueles rostos ainda guardam a mesa, ao redor da qual outras histórias foram sendo contadas. 
Há uma filha que não se casou. A memória lhe falta. Não reconhece mais seus semblantes. Eles a observam. Cantam para ela à noite. Embalam seu sono. Ela ri. Balbucia, cantarola, como se repetisse antigas parlendas.  Dança uma ciranda. Quem sabe não dançam com ela? As molduras do passado protegem seu passeio ininterrupto pela sala. Vigiam. Ela vai e volta. Seus olhos, cristalizados pelo tempo, a seguem sem parar, quem sabe, levando-a pela mão.
@Ana Ribeiro

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarta-feira de cinzas

 Fonte: torcedorcoral.com



Coloca-se novamente a máscara.
O rosto outra vez compenetrado. Pensamentos sem folia.
Alma de ressaca.

O bar da esquina tem apenas uma porta aberta.
É hora de varrer para fora o lixo das últimas risadas, agora esquecidas, despedaçadas, imóveis, espalhadas desfalecidas pelo chão.
Um bêbado na calçada insiste em segurar o instante. Inútil.

Rua suja.
De um jeito triste. Imóvel sujeira surda.
Alegria morta. O bêbado sorri.
É o limite.

Fiéis passam para a missa.
A música é outra.

Na boca ainda ébria da véspera
um sorriso samba mesmo assim.
@Ana Ribeiro

Batismo

 Seu nome na minha boca. Macio e doce na aspereza da minha língua. Ao dizê-lo, te construo, E te faço imagem e semelhança do amor que tenho....