quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Dezembro

Desejos empoeirados
irrealizam o ano que não termina.

Não há um the end para o tempo, me perdoem.

A vida se estica e encolhe o corpo,
desalisa a pele. Joga um pozinho fino sobre o brilho dos olhos.

 Os ciclos são impossíveis. Não existem recomeços. A continuidade eterna é implacável.

Dezembro é apenas uma ilusão.
E janeiro também.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Glossário

Dentre as palavras todas do meu disléxico

Gosto do ou e do se
talvez, seria, vários, quem sabe... são palavras que me atraem sobremaneira.

O quase, quase me angustia um pouco.

Vou sendo, estava, ando
poderia, quando... também me são caras.

Detesto tudo, nada, faça, venha, 
não sinta.

Abaixo o artigo definido, o substantivo concreto.

Prefiro nuvem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Apelo

Eu peço: não venha. Não venha agora. Não venha mais.
Nem amanhã também eu quero mais.
Eu peço: não fique. Não fique mais. Nunca mais.
Preciso que vá. Que vá sempre. Não quero que chegue para mim.
Porque esperar foi o que aprendi da vida a vida inteira. E agora eu gosto.
Seja sempre minha esperança.
O que sustenta minha espera.
O que sustenta minha fome, minha sede, meu desejo de querer ser feliz um dia.
Porque ser feliz é pra depois, sempre pra depois.
Então, por isso, Me deixe em paz, porque eu agora, já não te espero mais.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sinal de trânsito





Na volta para casa, ao anoitecer,
a lua, a quarenta por hora na placa de velocidade permitida.
Nem diminuí quando ela me viu.
Escondeu-se no amarelo gema da faixa contínua.
Me deu passagem para a contramão.
Peço não perguntarem para onde eu ia.
Talvez, nem mesmo a lua soubesse.

sábado, 28 de julho de 2012

Asas

                                                                                 

















O osso do pássaro é oco.
O osso do pássaro é pouco.
O osso do pássaro é louco.

Por isso o voo tão largo.
Por isso o voo.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

Um corpo para quê?

                                                                                           © Ozias Filho


O corpo.                                        

Um corpo estranho.
Esse estrangeiro sem tamanho.
Tão opaco quando nu.

Tão opaco quanto nu.

Quando fôrma:
Óvulo-sêmen.
Metade.


Quando prazer:
Nem  macho, nem fêmea.
Vontade.

O corpo.
Tão opaco quando nu.







sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cerco

                                                                                                       © Ozias Filho



Cada passo para frente não foi dado.
Assim como em um sonho de pernas desobedientes e respiração ofegante,
Sinto o peso da presa que não se desloca e a ameça predadora ao encalço.



Há décadas, impelida à exaustão para um onde sem direção,
sempre à caça,


Corro sem sair do lugar.
Já não há chegadas possíveis quando a imposição da viagem é eterna.

Pensar é paralisante.

Às vezes é preciso ficar.
Não ir também é revolucionário.








domingo, 24 de junho de 2012

Virtude

Então se perdeu.
Era uma noite sem estrelas.
Não houve testemunhas para sua tragédia.
Aplaudiu de pé quando o pano caiu no teatro vazio.
Perdeu-se.
E foi lindo.


sábado, 23 de junho de 2012

Bordões e bordéis

O desamparo
o desespero
o desengano
o desencanto
o desalento

O desafio

O desabafo
o desapego

O desvario
o  desatino

A destreza






domingo, 17 de junho de 2012

Espera

Recolho as vestes sujas de ontem
Até os joelhos erguidas, esperam.
Os pés estão limpos, ainda.
Meus braços doem segurando o tempo.
Envergonhada, orgulho-me de tamanha nudez.
Recolho as vestes sujas de ontem.
Prefiro o frio. E os passos que ainda não dei.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre as manhãs de segunda e a covardia cotidiana

Jurou que um dia
desses úteis e de sol
ficaria na cama
até o meio dia.
Não se preocuparia
com a agenda, o despertador
mataria serviço,
não pagaria a conta
desligaria o computador.
Não seria mãe, nem esposa,
filha ou o que quer que fosse.
Seria o que trouxesse o dia,
Esperaria, sem temor.
Viveria sem prazos
sem correria.
Não precisaria
nem de pão, nem de amor.
Jurou que faria.
Mas... Um dia.
Pensou bem.
E se levantou.

sábado, 12 de maio de 2012

Sublimar



sob  é subúrbio pulsante
sob é o que tenho
quiçá por debaixo
por debaixo da pele
subcutâneo
subentendido
subterfúgio
subversivo
Sob
Sub
A bússola latente.
Sem norte em mim




domingo, 29 de abril de 2012

Rosário

No alpendre de outra década -
um chalé: telhado de goteiras
e balaústres sem imponência -
vi uma flor de plástico.
Murcha.
Seu lilás desbotava debaixo da poeira
manchada por um chuvisco qualquer.
Parece que morria.

domingo, 22 de abril de 2012

Paisagem

Teses, teorias textamentos.
Óculos sacros em olhos de mil anos.
lentes turvas em um deserto de miragens.
Ver é tudo.
Ilusório sou eu.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Desassombro


Não há mais nada a  dizer sobre pedras e bodoques
ou sobre pássaros e homens.
Apenas se estica o elástico do tempo.
E nesse PLÁ, de assombro novo, é que pousa alguma pena.
Tão gasta de cair, descreve curva inédita.
Talvez eu conte isto:
Depois do tiro,
o menino de Barros é que pousa no lugar.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Reflexo II

Nem flor, nem aurora, sonho ou cantoria.
A poesia é caos. E sua no calor do meio dia.

Nem dor, nem amor, nem lua que alumia.
Tem que vender barato, pagar as contas em dia
Beleza fugidia. Agonia.

A poesia é caos. E sua no calor do meio dia.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarta-feira de cinzas


 Fonte: torcedorcoral.com



Coloca-se novamente a máscara.
O rosto outra vez compenetrado. Pensamentos sem folia.
Alma de ressaca.

O bar da esquina tem apenas uma porta aberta.
É hora de varrer para fora o lixo das últimas risadas, agora esquecidas, despedaçadas, imóveis, espalhadas desfalecidas pelo chão.
Um bêbado na calçada insiste em segurar o instante. Inútil.

Rua suja.
De um jeito triste. Imóvel sujeira surda.
Alegria morta. O bêbado sorri.
É o limite.

Fiéis passam para a missa.
A música é outra.

Na boca ainda ébria da véspera
um sorriso samba mesmo assim.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Valsa






Já nasceu ferida
ali. bem na beiradinha do mundo.
Ninguém a queria, menina.

Aprendeu a tomar o que sempre foi seu.
Com unhas e dentes, literalmente.

Cresceu destemida.
Achava que era bonito ser feliz.
Andar de batom.

No grito,
no muque,
no chute no peito.
Tomava alegria, achava que dava, se fosse bem forte.

Ferida de morte
De blush e perfume
Com pernas bonitas
Não mais de catorze.
Pegava na marra: os homens, as honras, a fama e a glória.
Seu nome era forte. Batia na morte e vencia: todos os dias.

Santa, flor, menina.
Eram nomes que ela não tinha.
Outros, mais duros, mais fortes, mais sujos, eram os que melhor lhe cabia.

Se queria, beijava
porque senão, batia.
Vendia prazer, sempre no fim do dia.

Seu seio perdido na palma da mão
nunca foi peito de leite tão branco

Pele quente de seda.

Menina mulher perdida e achada
nem flor, nem pecado. Já era da vida.
Gostava da vida,  quem disse que não?

Vítima nada,
Ovelha desgarrada, gostava assim.
Negra ovelha, nessa brancura sem fim.

Achava bonito ser feliz.
E não era má.


Um dia, bonita, no meio do salão.
Ele que não a conhecia, a pegou pela mão.
Dançou orgulhoso, olhou em seus olhos,
falou com carinho, baixinho.
Beijou-lhe a boca, tão suja, tão velha de tantos pecados.
Lavou-lhe a alma sem compaixão.
Bailaram, bailaram.
Beijaram-se sem exceção.
A cabeça no ombro de frágil idade.
Ele não sabia que não podia.
Que ela era da vida. Não era pra casar.
Ela, arrebatada, entregava-se noiva, sem saber.

E aquela noite, aquela música. Congelaram no corpo a palavra que mata.

Até que o baile acabou.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Final infeliz


Te falei da peia.
Dourou a pílula.
Sacudiu a poeira.

Te falei do ócio
Te falei da dor
Não quis nem saber
Nem tirar, nem  por.

Te falei que eu ia
Nem usei de tática.
Me olhou, nem gastou saliva.
Te falei que eu ia.

Ficamos assim,
sem eira nem beira,
na rua da amargura
como bem se dizia.

Eu tiro de letra esse drama barato.
Você nem se fala. Rasgou o retrato.

A vida é tão pobre. Esse romance
Não tem nada de nobre.
É como outros tantos iguais por aí.
Não vale um poema.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Comercial


Evite a luz.
Evite o sol, se puder.
Não respire mais.
Coma pouco.
Não coma.
A água é insalubre. Não beba.
Dormir é perigoso.
Sonhar, impossível.
Rir? De jeito nenhum. O dia é só tragédia.
Mantenha-se alerta. De pé. Não corra. Parar também é proibido.
Saiba que o mundo é uma ameaça. Proteja-se.
Cuidado:
Viver pode causar câncer.

sábado, 14 de janeiro de 2012