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NONSENSE

Eu sempre ouvi:
um dia a casa cai.

Desde criança:
um dia é da caça o outro do caçador.

Antigamente:
quem com ferro fere com ferro será ferido
olho por olho dente por dente.

Parece o homem: lobo do homem,
em diálogo consigo mesmo.

Mas agora, é o barro que fala.

Quem quer ouvir?

O homem barro
enlameado até os dentes.

De volta à casa.
Para sempre ao pó.

A casa caiu.
Aos milhares.
E os dentes, e os olhos e o ferro.

O ditado velho ficou novo de novo.

A palavra gasta não serve mais.
É tarde para reconstruir.
Até mesmo os velhos discursos.

Comentários

  1. Vi você lá no DS, Ana, e voltei pra deixar um comentário. Aí tenho a agradabilíssima surpresa de já encontrár o blog no seu blogroll. Obrigada, é uma honra receber o aval de alguém que escreve tão bem. Ficarei de olho em você e no Tiago.

    Beihos

    ResponderExcluir
  2. Que surpresa. É uma honra tê-la por aqui. Ficarei muito feliz se voltar sempre.

    ResponderExcluir
  3. Ana,
    Tens estilo, tens o condão: grata surpresa poética...
    Virei mais com certeza...

    Abraço poético,
    Pedro Ramúcio.

    ResponderExcluir

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