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A tela

Dentro da tela, a tela
e atrás.
antes e depois do olho.
do meu olho,
do seu olhar.

Quantas são todos os dias?
O que me veem?
te falo, me fala, nos fala, falamos dela.
No almoço
no copo de café
enquanto durmo, ao meu lado ressona, sussurra imagens deslizantes loucamente coloridas que me invadem os ouvidos, os sentidos
Que sentido faz?

Que sentido faz,
se a tela me ocupa o colo do filho
que mama os flashs loucos desvirtuados?
E não me cobra mais meus mimos?

Ela me faz companhia
me distrai na insônia
me desperta de manhã
É meu espelho
meu guru.
É meu guri.

Foi feita para bastar-se-me.

Mas eu vejo um buraco negro ameaçando essa relação.


Postagens recentes

História de avó

Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
Nós não somos o que fomos. Somos aquilo que ficou de nós e se perpetua.
Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
A mulher que está nas filhas a mãe que está nas filhas a avó o exemplo
Sua humanidade tão latente pulsa na falta do colo, no olhar duro, na palavra calada e que por isso ecoa ainda hoje.
A mãe que foi a mãe que queriam.
A mulher que queria ser e a que não teve escolha.
Quem há de saber se chorou? O quanto amou? Se foi feliz? Se fez o que quis Se não quis.
Ela são muitas. Quem saberá contá-las? E quem sou eu para dizê-las?
Sei dizer da que ficou. Da quitanda fresca e cheirosa do fogão vivo do trabalho Sei falar do vestido novo das tramas do bordado dos nozinhos do crochê (quem me dera saber dos pensamentos que os teceram)
Sei falar das palavras que os filhos lhe adivinharam e agora proferem. Sei falar dos dons herdados dos recheios, da mesa farta, da família em volta das colchas, dos botões, das …

How far

How far am I do mar? How far?
É muito longe a amplidão de mim. A falta de margens, a imensidão.
É muito longe de mim o horizonte sem fim. É muito longe o mar em mim.
Do mar... I am so far... Embora eu o ouça, sinta seu cheiro, molhe meus pés, sempre impermeáveis demais.
Eu o provo, eu o sonho. Ele me inunda, me encharca, me afoga. Ele me arde as narinas.
Mas eu não mergulho. Eu não me atiro. Eu não embarco.
E sem ir, eu naufrago em mim. 
How far am I do mar? How far?

Crônica para o dia das mães

Esta é uma história de ficção. Para continuar até o fim, você precisa tirar seu pezinho da realidade, aguçar as forças imaginativas de sua mente e postar-se diante do texto como quem vai ler um conto fantástico. A personagem criada aqui é tão inverossímel quanto o leão de Nárnia. Não se assuste se sentir piedade ou pavor diante dela. São sentimentos comumente relatados. No mais, seja sensata, leitora (ou leitor) e evite pensar que existe em você alguma característica desse ser tão improvável. É apenas um efeito ilusório, sem fundamento real possível.
Há muito tempo atrás, nos primórdios da humanidade, existiu uma criatura hoje extinta, graças ao longo processo evolutivo pelo qual passaram homens e mulheres. Era uma fêmea. As crias do homem saíam do seu corpo, de uma forma extremamente dolorida, depois de nove meses crescendo dentro dela. Retirá-las de maneira menos cruel era considerado uma aberração e a prática do parto natural, assim como o hábito de exames terríveis, era incentiva…
Dentro das coisas há um infinito.
Um buraco negro que engole  palavras.
O dentro não nomeado é só possibilidade.
Molho meus pés. A água é fria.
Não há isca possível.
Quem sabe não caio. E pego com a mão a palavra escorregadia que agora me afoga.