quinta-feira, 4 de julho de 2024

Rotina

 O pote de sal sobre a pia está aberto.

Sentada aqui,

desse lugar onde estou, posso ver que está aberta sua tampa vermelha.

Daqui, da ponta da mesa, vejo que tem uma colher dentro do pote de tampa vermelha . Uma colher com o cabo de madeira, pendente para o lado.

Até então, antes de estar aqui sentada, nesse descanso corrido das seis horas, banho tomado, cabelo cheirando a shampoo, não havia reparado.

No tamanho da cozinha, no pote de sal, naquela colher, em sua matéria gasta, pensada para não queimar a mão.

Mas sentada aqui, na ponta pouco visitada dessa mesa tão comprida, reparo.

Sempre há tempo de se olhar por outro ângulo.

E tornar a ver. 

@anaribeiro

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Linhagem

 A tua vida ajuda a tecer o tempo

Tu és 

Tu és a que foi e a que virá

És mãe e avó 

Tu geras e regeneras

És neta. Bisneta. Tetravó.

Sentes o cheiro? Tateias a cicatriz? Esse gesto? É não é teu.

És.


Tu és 

Tu és viagem 

Tu és passagem

Tu és passagem dessa língua arcaica para o teu símbolo, para o teu texto. Tu podes narrar-te agora. Imaginar-te. Recriar-te. Se queres. Mas não podes fugir das cores e das linhas, das vozes que ecoam pelos séculos.

Mas tu és.

Tu és eternidade.

@anaribeiro


sábado, 22 de junho de 2024

Diversidade

Existem e andam por aí os mesquinhos, os idiotas, os cruéis, os fracos, os covardes; os racistas, os misóginos, os machistas, os guardiões bíblicos da culpa e da espada.

 Sempre estiveram sobre a terra e habitaram entre nós. 

O problema é que todos são elegíveis, e chegam perigosamente ao poder.  Não há história que impeça. A humanidade, desde sempre, flerta com o demônio e se deixa seduzir.

Parir o mal eternamente. Eis nosso destino. 

O céu ao alcance é a hecatombe. O apocalipse.

Por isso Judas e Pilatos.

@anaribeiro





quinta-feira, 6 de julho de 2023

Sentença

 Todo mundo vai morrer.

Mas ninguém devia morrer de câncer.

Porque de câncer não se morre... se vai morrendo...

O gerúndio como o grande mal.

se vai morrendo:

de doença, de tristeza, de desengano, de raiva, de resignação, de despedida todos os dias,

de acordar e ver que acordou mais uma vez, de esperar, de ter esperança, de não ter esperança. 

Não é justo com a vida que resta esse cansaço de guilhotina à espreita.

@Ana Ribeiro


domingo, 16 de maio de 2021

Obtuário

Morreu Bené
Délia se foi
Dulce partiu
Filó descansou
Acabou-se Abreu


Dizem que ainda se vão mais uns muitos
mais de mil
mais de mil e cem
Dizem que ainda vão muitos, muitos mais que cem mil

Nessa conta Maria não entra


No começo teve medo. Fechou janela. Se escondeu da comadre. Desculpou-se com o Padre e não foi  comungar.
Mas agora  não tem mais susto, nem arregala os olhos, nem põe as mãos na cabeça.
Quinzin' morreu? É mesmo?  E nem levanta os olhos do tanque inundado até a boca, molhando sua barriga. E segue a segunda feira.

No começo era um horror: dez, cinquenta, quinhentos... Mas isso foi há muito tempo.
Maria já não conta mais.
É que agora... tem que tocar a vida.
@Ana Ribeiro




sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Minhas gavetas

 Tenho uma tristeza profunda, 
guardada só pra mim, 
que vez ou outra aflora, 
mas não adianta espiar, 
não pode ser vista do lado de fora!

Fico olhando pra ela,
tentando entender,
procurando as raízes e vendo suas teias,
e não acho nada que me aponte,
nenhum norte que me mostre suas veias!

Tenho uma tristeza bem funda,
que cuido dela sem te mostrar,
não faço barulho e não deixo escutar,
o que ela sussurra quando quer falar
você não escuta e não adianta espiar. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Vou te contar um segredo

 É possível falar do que poderia ter sido? Já parou para pensar em todas as coisas em sua vida que poderiam ter sido, mas não foram? Não digo aquelas que você escolheu não fazer. Não me refiro às opções conscientes, refletidas, pensadas e pesadas. Penso nos pequenos atos involuntários de recusa: o olhar que não sustentou, a mão que você segurou, para que impulsivamente não tocasse outra, parecendo ter vontade própria; o beijo que, por um triz, você não se permitiu; o salto que você não deu, a estrada que não trilhou; a palavra que não disse. Um lampejo de desejo que esteve prestes a se concretizar, mas que ficou apenas no seu pensamento. Ninguém soube. Nem você mesma se permitiu pensar ou sentir, mas que, denso e robusto desobedeceu sua razão e surgiu forte, fora do seu controle. Coisas que ficaram no universo do quase, ações que, por uma fração de segundo, não aconteceram, sabe-se lá por que razão. Censura? Autocensura? Ação inconsciente do superego castrador? Superforçadevontade? Ou por razões mais altruístas, como não magoar alguém, por exemplo?

O que poderia ter sido não se realizou, mas fica encasulado e latente, e tocá-lo, ainda que de leve, pelas vias da memória, faz reavivar a potência de sua existência não concretizada, cuja energia faz esfriar a barriga e eriçar os pelos do corpo. Estranhamente, o que não existiu é capaz de despertar emoções indescritíveis e difíceis de nomear: medo, euforia, vergonha, recusa, culpa, susto... tudo ao mesmo tempo agora! A memória da sensação que poderia ter sido sentida se o ato se consumasse erige embrionária, inteira, explosiva e quente, mas não extravasa. Volta para junto do que não foi, empurrada por forças que a realidade, o cotidiano e a vida que escolhemos não permitem mais que se concretize. Entretanto, sabemos que a lembrança está lá, perdida em algum lugar da memória, que por vezes, é inesperadamente e inexplicavelmente acessada por um estímulo qualquer: um cheiro, uma música, um lugar, um objeto, um pensamento, alguém.

Porém devo repetir: Isso que não foi, não poderia mesmo ter sido. E por isso, é belo. E por isso, comove. Sinto saudade do que não fiz. Há coisas das quais me arrependo de não ter feito. Mas não são dessas que eu falo. Digo daquelas que quase fiz, que meu pensamento quase me fez acreditar que aconteceram, porque senti como se tivessem acontecido. Desejos que cruzaram rapidamente meu pensamento, mas que foram afastados com a mesma pressa pela minha razão. São esses que guardo com estima e os quais, às vezes, me permito reviver e experimentar as sensações que me provocam. O que poderia ter sido me lembra quem sou, de outras que fui ou que poderia ser, ou propõem uma promessa rascunhada de mim. 

O que poderia ter sido não poderia mesmo ter sido e deve permanecer envolto nessa névoa de pretensa realidade. Não dói não ter acontecido. Falo de um alegre não realizado. O que poderia ter sido são muitos. O que poderia ter sido é um tesouro que fui ajuntando em um baú de  pequenas lembranças esparsas. É com ele que brinco às vezes. Procuro as chaves, abro sua tampa abaulada e antiga, seu brilho me cega por um minuto. Levo a mão indecisa em sua direção. Não toco. Fico imaginando textura, temperatura, outras sensações. Torno a fechá-lo, para que sua beleza não se perca. É bom saber que está lá e que vai estar para sempre. Justamente porque só existe assim: em estado de pura possibilidade. @anaribeiro

Batismo

 Seu nome na minha boca. Macio e doce na aspereza da minha língua. Ao dizê-lo, te construo, E te faço imagem e semelhança do amor que tenho....