segunda-feira, 28 de abril de 2014

Crônica para o dia das mães

Esta é uma história de ficção. Para continuar até o fim, você precisa tirar seu pezinho da realidade, aguçar as forças imaginativas de sua mente e postar-se diante do texto como quem vai ler um conto fantástico. A personagem criada aqui é tão inverossímel quanto o leão de Nárnia. Não se assuste se sentir piedade ou pavor diante dela. São sentimentos comumente relatados. No mais, seja sensata, leitora (ou leitor) e evite pensar que existe em você alguma característica desse ser tão improvável. É apenas um efeito ilusório, sem fundamento real possível.

Há muito tempo atrás, nos primórdios da humanidade, existiu uma criatura hoje extinta, graças ao longo processo evolutivo pelo qual passaram homens e mulheres. Era uma fêmea. As crias do homem saíam do seu corpo, de uma forma extremamente dolorida, depois de nove meses crescendo dentro dela. Retirá-las de maneira menos cruel era considerado uma aberração e a prática do parto natural, assim como o hábito de exames terríveis, era incentivada, principalmente pelos machos do grupo  que tinham pleno controle sobre o corpo das fêmeas, pois eram considerados mais fortes, capazes e hábeis para entender o mundo e a natureza.  O fato de terem tomado para si tal prerrogativa, garantiu-lhes certas regalias. Controlar as fêmeas era uma delas, se não pela força inegável de seus corpos, por meio também de um poder invisível, muitas vezes nomeado de cuidado ou proteção, cultivado pelas gerações anteriores e reforçado cotidianamente pelo grupo em que conviviam. "Eu te amo" era "Eu, teu amo".
A tal criatura tinha como razão de ser apenas garantir uma prole saudável para os machos e trabalhar para o bem estar daquele núcleo, o qual chamavam família. Responsabilizava-se pelo cuidado da caverna, pelas peles que cobriam os corpos de todos, pela educação dos filhotes. Fazia, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Por esse motivo, foi aos poucos desenvolvendo olhos e orelhas muito grandes que lhe permitiam quase que adivinhar os problemas antes que estes surgisserm realmente. As antenas foram apenas mais uma consequência de seu hábito arraigado de captar todos os sinais à sua volta. Surgiram-lhe mais dois pares de braços, de cada lado do corpo. Desse modo, era capaz de desenvolver várias tarefas ao mesmo tempo. E, pasmem! Como se não bastasse isso, num protótipo do que hoje chamam "neurose", ainda se sentia culpada quando, por algum motivo, um membro dessa família não se sentia alcançado pelo seu cuidado e reclamava atenção ou se irritava porque seus braços, antenas, olhos, orelhas e pernas não foram suficientes para as necessidades de todos. Aprendeu e absorveu tão bem tais hábitos, que já não precisava mais ser adestrada. Assumiu esse papel e passou a desempenhá-lo com felicidade.
Apesar de todas as dificuldades, decidiu ainda que deveria sair à caça, junto com seu companheiro. Foi à luta. A caverna já não era mais seu único universo de atuação. Além dos braços, orelhas e olhos, nasceram-lhe mais pernas e pés e mãos e bocas, porque agora precisava dar conta destes dois mundos diversos e ainda estar pronta para dar amor, carinho, compreensão, equilíbrio para quem quer que fizesse parte de sua rede de contatos. Transferiu para o trabalho fora da toca as atribuições de mãe e esposa. Logicamente, foi ganhando espaço e por conta disso,  se tornando cada vez maior. 
Seu corpo, cada vez mais desproporcional, ia acolhendo e absorvendo os problemas do mundo. Evitava brigas no lar, prevenia bancarrotas, interrompia processos de guerra com seu infinito poder de negociação, sua imensa paciência e sua calma inesgotável.
Muitas acharam que conseguiram dividir com os machos as responsabilidades domésticas, mas na verdade, não conseguiam se livrar do stress e do peso da responsabilidade de manter o lar organizado, feliz e sm conflitos.
Era bom mesmo que ficasse ocupada sempre, pois havia dentro de si uma força desconhecida, descomunal, que precisava ser controlada a qualquer custo. Um poder estranho, que nem mesmo ela conhecia. Todos os esforços da comunidade eram reunidos e exercitados para que sentimentos inadequados não despertassem dentro daquela criatura, o que poderia transformá-la, de repente, em algo que nunca, ninguém tivesse conhecido, o que era causa de grande temor. 
Algumas drogas foram desenvolvidas para controlar seu corpo e sua mente. Peso e felicidade na medida certa eram fundamentais. Ajudavam a mantê-la no lugar certo, o tempo todo. Máquinas torturantes para moldar suas formas e controlar suas emoções. O amor e o respeito ao macho e esses sentimentos em dobro para as crias era o que se esperava dela, além de uma vida tranquila que garantisse a todos uma rotina sem sobressaltos.
 Casos de uma ou outra fêmea que porventura se comportasse de maneira diferente eram censurados a todo custo e apenas susurrados raramente. Ou, quando narradas para as novas gerações, a história era contada de forma a transformar quem se desviou em perigosas marginais, ou ainda em  pessoas infelizes, malvadas, estranhas, sozinhas, loucas...
Depois, mais tarde, encarregavam-se ainda de passar a árdua tarefa às fêmeas mais jovens, garantindo assim a perpetuação da espécie e do bem estar masculino. O que sentia? Medo. De não ser tão bonita, tão competente, tão atraente, tão feliz, a ponto de não agradar... agradar um homem que pudesse lhe proporcionar aquela vida, igual à das outra todas e se encaixar nos padrões da normalidade social.
Quando velha, sem o que fazer com seu corpo deformado, seu cérebro infinito de tanto pensar com amor, sossegava triste, por acreditar que seu sonho de mulher tinha sido realizado.

Mas isso foi há muito tempo. Não se tem notícia, em nossos dias, de ser vivo que se assemelhe a tal monstruosidade. Essa figura fictícia não possui ponto de convergência com a mulher moderna: livre, independente, dona de seu corpo e de seus desejos. Capaz de sentir, compreender e aceitar seus sentimentos. Capaz de virar o jogo. Não. Qualquer semelhança  é  mera coincidência.

sábado, 1 de março de 2014

Dentro das coisas há um infinito.
Um buraco negro que engole  palavras.
O dentro não nomeado é só possibilidade.
Molho meus pés. A água é fria.
Não há isca possível.
Quem sabe não caio. E pego com a mão a palavra escorregadia que agora me afoga.