Dentro da tela, a tela
e atrás.
antes e depois do olho.
do meu olho,
do seu olhar.
Quantas são todos os dias?
O que me veem?
te falo, me fala, nos fala, falamos dela.
No almoço
no copo de café
enquanto durmo, ao meu lado ressona, sussurra imagens deslizantes loucamente coloridas que me invadem os ouvidos, os sentidos
Que sentido faz?
Que sentido faz,
se a tela me ocupa o colo do filho
que mama os flashs loucos desvirtuados?
E não me cobra mais meus mimos?
Ela me faz companhia
me distrai na insônia
me desperta de manhã
É meu espelho
meu guru.
É meu guri.
Foi feita para bastar-se-me.
Mas eu vejo um buraco negro ameaçando essa relação.
sábado, 17 de fevereiro de 2018
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
História de avó
Uma
mulher, uma casa
uma casa e
um jardim
e a
eternidade.
Nós não
somos o que fomos.
Somos
aquilo que ficou de nós
e se
perpetua.
Uma
mulher, uma casa
uma casa e
um jardim
e a
eternidade.
A mulher
que está nas filhas
a mãe que
está nas filhas
a avó
o exemplo
Sua
humanidade tão latente
pulsa na
falta do colo,
no olhar
duro,
na palavra
calada e que por isso
ecoa
ainda
hoje.
A mãe que
foi
a mãe que
queriam.
A mulher
que queria ser
e a que
não teve escolha.
Quem há
de saber se chorou?
O quanto
amou?
Se foi
feliz?
Se fez o
que quis
Se não
quis.
Ela são
muitas. Quem saberá contá-las?
E quem sou
eu para dizê-las?
Sei dizer
da que ficou.
Da
quitanda fresca e cheirosa
do fogão
vivo
do
trabalho
Sei falar
do vestido novo
das tramas
do bordado
dos
nozinhos do crochê
(quem me
dera saber dos pensamentos que os teceram)
Sei falar
das palavras que os filhos lhe adivinharam
e agora
proferem.
Sei falar
dos dons herdados
dos
recheios, da mesa farta, da família em volta
das
colchas, dos botões, das cores,
do
aconchego da lã,
do doce,
do cheiro
e do sabor.
Sei dizer
da flor.
Queria ter
ouvido o barulho da bica
sentido o
calor do forno,
ouvido o
galo cantar
ter vivido
um sábado de férias
Ter tido
medo do escuro,
rezado o
terço,
bebido o
leite quente.
Queria ter
visto a chuva da janela
nos dias
de chuva interminável.
Queria
ter feito travessuras
ido dormir
assustada, sentindo o peso e o aroma das cobertas.
(sua mão).
E nas
febres de criança
nos
delírios e calores
nos
arrepios doloridos
chamá-la.
E ela
viria doce (talvez só naquele dia)
E a
compressa e seu corpo próximo
seria amor
bastante.
Quem teria
sido afinal,
se não
existíssimos nós?
É em nós
que ela existe.
Mas foi
muitas outras.
Segredo.
Uma
mulher, uma casa
uma casa e
um jardim
e a
eternidade.
sábado, 13 de agosto de 2016
How far
How far am I do mar?
How far?
É muito longe a amplidão de mim.
A falta de margens, a imensidão.
É muito longe de mim o horizonte sem fim.
É muito longe o mar em mim.
Do mar... I am so far...
Embora eu o ouça, sinta seu cheiro, molhe meus pés, sempre impermeáveis demais.
Eu o provo, eu o sonho. Ele me inunda, me encharca, me afoga. Ele me arde as narinas.
Mas eu não mergulho. Eu não me atiro. Eu não embarco.
E sem ir, eu naufrago em mim.
How far am I do mar?
How far?
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Maria vai com as outras
Maria vai com as outras.
E gosta.
Maria vai com as outras.
E fica.
E não quer nem saber.
Maria é de opinião.
E gosta.
Maria vai com as outras.
E fica.
E não quer nem saber.
Maria é de opinião.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Crônica para o dia das mães
Esta é uma história de ficção. Para continuar até o fim, você precisa tirar seu pezinho da realidade, aguçar as forças imaginativas de sua mente e postar-se diante do texto como quem vai ler um conto fantástico. A personagem criada aqui é tão inverossímel quanto o leão de Nárnia. Não se assuste se sentir piedade ou pavor diante dela. São sentimentos comumente relatados. No mais, seja sensata, leitora (ou leitor) e evite pensar que existe em você alguma característica desse ser tão improvável. É apenas um efeito ilusório, sem fundamento real possível.
Há muito tempo atrás, nos primórdios da humanidade, existiu uma criatura hoje extinta, graças ao longo processo evolutivo pelo qual passaram homens e mulheres. Era uma fêmea. As crias do homem saíam do seu corpo, de uma forma extremamente dolorida, depois de nove meses crescendo dentro dela. Retirá-las de maneira menos cruel era considerado uma aberração e a prática do parto natural, assim como o hábito de exames terríveis, era incentivada, principalmente pelos machos do grupo que tinham pleno controle sobre o corpo das fêmeas, pois eram considerados mais fortes, capazes e hábeis para entender o mundo e a natureza. O fato de terem tomado para si tal prerrogativa, garantiu-lhes certas regalias. Controlar as fêmeas era uma delas, se não pela força inegável de seus corpos, por meio também de um poder invisível, muitas vezes nomeado de cuidado ou proteção, cultivado pelas gerações anteriores e reforçado cotidianamente pelo grupo em que conviviam. "Eu te amo" era "Eu, teu amo".
A tal criatura tinha como razão de ser apenas garantir uma prole saudável para os machos e trabalhar para o bem estar daquele núcleo, o qual chamavam família. Responsabilizava-se pelo cuidado da caverna, pelas peles que cobriam os corpos de todos, pela educação dos filhotes. Fazia, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Por esse motivo, foi aos poucos desenvolvendo olhos e orelhas muito grandes que lhe permitiam quase que adivinhar os problemas antes que estes surgisserm realmente. As antenas foram apenas mais uma consequência de seu hábito arraigado de captar todos os sinais à sua volta. Surgiram-lhe mais dois pares de braços, de cada lado do corpo. Desse modo, era capaz de desenvolver várias tarefas ao mesmo tempo. E, pasmem! Como se não bastasse isso, num protótipo do que hoje chamam "neurose", ainda se sentia culpada quando, por algum motivo, um membro dessa família não se sentia alcançado pelo seu cuidado e reclamava atenção ou se irritava porque seus braços, antenas, olhos, orelhas e pernas não foram suficientes para as necessidades de todos. Aprendeu e absorveu tão bem tais hábitos, que já não precisava mais ser adestrada. Assumiu esse papel e passou a desempenhá-lo com felicidade.
Apesar de todas as dificuldades, decidiu ainda que deveria sair à caça, junto com seu companheiro. Foi à luta. A caverna já não era mais seu único universo de atuação. Além dos braços, orelhas e olhos, nasceram-lhe mais pernas e pés e mãos e bocas, porque agora precisava dar conta destes dois mundos diversos e ainda estar pronta para dar amor, carinho, compreensão, equilíbrio para quem quer que fizesse parte de sua rede de contatos. Transferiu para o trabalho fora da toca as atribuições de mãe e esposa. Logicamente, foi ganhando espaço e por conta disso, se tornando cada vez maior.
Seu corpo, cada vez mais desproporcional, ia acolhendo e absorvendo os problemas do mundo. Evitava brigas no lar, prevenia bancarrotas, interrompia processos de guerra com seu infinito poder de negociação, sua imensa paciência e sua calma inesgotável.
Muitas acharam que conseguiram dividir com os machos as responsabilidades domésticas, mas na verdade, não conseguiam se livrar do stress e do peso da responsabilidade de manter o lar organizado, feliz e sm conflitos.
Muitas acharam que conseguiram dividir com os machos as responsabilidades domésticas, mas na verdade, não conseguiam se livrar do stress e do peso da responsabilidade de manter o lar organizado, feliz e sm conflitos.
Era bom mesmo que ficasse ocupada sempre, pois havia dentro de si uma força desconhecida, descomunal, que precisava ser controlada a qualquer custo. Um poder estranho, que nem mesmo ela conhecia. Todos os esforços da comunidade eram reunidos e exercitados para que sentimentos inadequados não despertassem dentro daquela criatura, o que poderia transformá-la, de repente, em algo que nunca, ninguém tivesse conhecido, o que era causa de grande temor.
Algumas drogas foram desenvolvidas para controlar seu corpo e sua mente. Peso e felicidade na medida certa eram fundamentais. Ajudavam a mantê-la no lugar certo, o tempo todo. Máquinas torturantes para moldar suas formas e controlar suas emoções. O amor e o respeito ao macho e esses sentimentos em dobro para as crias era o que se esperava dela, além de uma vida tranquila que garantisse a todos uma rotina sem sobressaltos.
Casos de uma ou outra fêmea que porventura se comportasse de maneira diferente eram censurados a todo custo e apenas susurrados raramente. Ou, quando narradas para as novas gerações, a história era contada de forma a transformar quem se desviou em perigosas marginais, ou ainda em pessoas infelizes, malvadas, estranhas, sozinhas, loucas...
Depois, mais tarde, encarregavam-se ainda de passar a árdua tarefa às fêmeas mais jovens, garantindo assim a perpetuação da espécie e do bem estar masculino. O que sentia? Medo. De não ser tão bonita, tão competente, tão atraente, tão feliz, a ponto de não agradar... agradar um homem que pudesse lhe proporcionar aquela vida, igual à das outra todas e se encaixar nos padrões da normalidade social.
Quando velha, sem o que fazer com seu corpo deformado, seu cérebro infinito de tanto pensar com amor, sossegava triste, por acreditar que seu sonho de mulher tinha sido realizado.
Algumas drogas foram desenvolvidas para controlar seu corpo e sua mente. Peso e felicidade na medida certa eram fundamentais. Ajudavam a mantê-la no lugar certo, o tempo todo. Máquinas torturantes para moldar suas formas e controlar suas emoções. O amor e o respeito ao macho e esses sentimentos em dobro para as crias era o que se esperava dela, além de uma vida tranquila que garantisse a todos uma rotina sem sobressaltos.
Casos de uma ou outra fêmea que porventura se comportasse de maneira diferente eram censurados a todo custo e apenas susurrados raramente. Ou, quando narradas para as novas gerações, a história era contada de forma a transformar quem se desviou em perigosas marginais, ou ainda em pessoas infelizes, malvadas, estranhas, sozinhas, loucas...
Depois, mais tarde, encarregavam-se ainda de passar a árdua tarefa às fêmeas mais jovens, garantindo assim a perpetuação da espécie e do bem estar masculino. O que sentia? Medo. De não ser tão bonita, tão competente, tão atraente, tão feliz, a ponto de não agradar... agradar um homem que pudesse lhe proporcionar aquela vida, igual à das outra todas e se encaixar nos padrões da normalidade social.
Quando velha, sem o que fazer com seu corpo deformado, seu cérebro infinito de tanto pensar com amor, sossegava triste, por acreditar que seu sonho de mulher tinha sido realizado.
Mas isso foi há muito tempo. Não se tem notícia, em nossos dias, de ser vivo que se assemelhe a tal monstruosidade. Essa figura fictícia não possui ponto de convergência com a mulher moderna: livre, independente, dona de seu corpo e de seus desejos. Capaz de sentir, compreender e aceitar seus sentimentos. Capaz de virar o jogo. Não. Qualquer semelhança é mera coincidência.
sábado, 1 de março de 2014
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