Corro para pensar no que estou pensando agora
e publicar uma frase rasa nesse meu rosto fantasmagórico que se mostra em um espelho descascado.
Daqueles mesmo, manchados pela falta do reflexo. E do uso excessivo e demorado.
Do outro lado dessa moldura vazia
ninguém repara.
As palavras são apenas maquiagem derretida no meio do dia sem calor.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
INSÔNIA
Há um cansaço antigo sobre todas as coisas novas.
De ombros rijos e vergados meu olhar percorre o mundo.
O estalido do velho assoalho ainda me causa espanto.
O grito escapa antes mesmo do susto.
Há rugas flácidas encapsuladas nas faces novas dos outdoors.
Cá estou eu. Debaixo do mesmo sol.
A sombra é pouca.
Não há alívio para a sede que me consome.
sábado, 22 de outubro de 2011
A derrota de Hermes (Poesia inerme)
Tudo é pressa.
Nada para. Não há pousada pra alegria.
O tempo tem pernas curtas e vai de trote para não atrasar.
Tudo é pressa. E essa luta me angustia.
Não há pousada para a alegria.
Ofegante, não acompanho
por mais que eu tente alcançar.
Foi só um flash o que eu acho ter visto.
Logo ali atrás.
Esta é uma era em que não se pode crer.
Tenho que ir.
Tenho que ir sem nunca chegar.
Tudo é pressa.
Essa luta me angustia.Não há pousada pra alegria
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Ofício de poeta
O motivo se faz em sua própria ausência.
A poesia, às vezes, é um nada
que inunda vazios de cor
e ilumina meus cantos tão assombrados.
Ela sabe de cor meus avessos,
às vezes, tão intraduzíveis.
Motivo? Sigo procurando.
É um não estar aqui o que me move, constantemente.
Não há coisa, nem sentimento...
Há sim, um pressentimento, quase sempre onipotente
que se instala.
Eis o mote.
E mais nada.
domingo, 9 de outubro de 2011
Um poema de filha pra mãe
PRAZO DE ENTREGA
O texto era para a terça.
Palavras encomendadas
Silêncio – foi o que a professora sugeriu
Ah! Se isso bastasse!
A mãe disse:
- Não dá assim, para racionalizar.
O amigo indicou um tema.
Rodopiando...
A caneta...
A cabeça...
Rabiscos
Sem mensagem alguma.
Eu chamei.
Ela não veio.
Exigi.
Ela não veio.
Subornei.
Riu de mim.
Desisti.
(Olívia Monteiro - 3º lugar no FECBIA - evento realizado pelo Intstituto Auxiliadora - Rede Salesiana - de São João del Rei - Outubro de 2011)
sábado, 24 de setembro de 2011
Provável resposta a uma pergunta de criança
Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho.
Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação.
Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lugar.
Insatisfeita com a resposta, contrariando as teorias da infância que prometem que uma resposta simples é suficiente para a criança satisfazer sua curiosidade imediata, não sendo necessário explicações complicadas e prolongadas, questionou-me com uma seriedade atípica para uma criança de sua idade: Por que não batem o sino pelos nascimentos?
Senti-me ferida de morte. Por que, do alto da minha experiência, e apesar dos longos anos de minha vida inteira, nunca pensei sobre isto? O dominó dos pensamentos associados foi inevitável. O ritual da vida que termina é realmente algo a que se dá muito destaque. A cidade vive invariavelmente no, mínimo, três dias de luto para cada cidadão que se vai. Fiquei achando que gostamos mais de celebrar aquilo que nos mata. Anunciamos a plenos pulmões a morte, a violência, a corrupção, a miséria, os desatinos. Por que damos tão pouco espaço para a vida, para o sonho, para a arte e a beleza?
E aqui, desse lugar tão pequeno, posso anunciar não pelo sino da matriz, nem pela voz tradicional do locutor responsável, que minha cidade é igual ao resto do mundo: Seja pelo auto-falante da matriz ou pela internet, não cansamos de evidenciar a dor que nos consome, mesmo que haja alegrias nos rondando, sem que nos permitamos percebê-las. Sem mudar de itinerário nas reflexões percorridas até aqui, mas já saindo um pouco da rota, aproveito uma pausa para um pequeno aparte: Aprendemos a dividir tudo em dois: bem e mal, vida e morte, culpa e prazer. Esquecemo-nos de que tudo é existência ou que a existência é um todo e que as coisas não se separam tão facilmente assim. Tornamo-nos seres duais, partidos, composto por partes opostas que não se abrangem. E é assim que vamos vendo o mundo e as pessoas.
Nascer e morrer. Duas pontas do mesmo fio. Duas pontas iguais, que se confundem no mesmo mistério. Enquanto não nos damos conta disso, e sabemos aproveitar com alegria o sabor de cada uma ou de ambas, permitamo-nos, ao menos, bater mais sinos pela vida.
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