quarta-feira, 7 de setembro de 2016

História de avó

Uma mulher, uma casa
uma casa e um jardim
e a eternidade.

Nós não somos o que fomos.
Somos aquilo que ficou de nós
e se perpetua.

Uma mulher, uma casa
uma casa e um jardim
e a eternidade.

A mulher que está nas filhas
a mãe que está nas filhas
a avó
o exemplo

Sua humanidade tão latente
pulsa na falta do colo,
no olhar duro,
na palavra calada e que por isso
ecoa
ainda hoje.

A mãe que foi
a mãe que queriam.

A mulher que queria ser
e a que não teve escolha.

Quem há de saber se chorou?
O quanto amou?
Se foi feliz?
Se fez o que quis
Se não quis.

Ela são muitas. Quem saberá contá-las?
E quem sou eu para dizê-las?

Sei dizer da que ficou.
Da quitanda fresca e cheirosa
do fogão vivo
do trabalho
Sei falar do vestido novo
das tramas do bordado
dos nozinhos do crochê
(quem me dera saber dos pensamentos que os teceram)

Sei falar das palavras que os filhos lhe adivinharam
e agora proferem.
Sei falar dos dons herdados
dos recheios, da mesa farta, da família em volta
das colchas, dos botões, das cores,
do aconchego da lã,
do doce,
do cheiro e do sabor.
Sei dizer da flor.

Queria ter ouvido o barulho da bica
sentido o calor do forno,
ouvido o galo cantar
ter vivido um sábado de férias
Ter tido medo do escuro,
rezado o terço,
bebido o leite quente.
Queria ter visto a chuva da janela
nos dias de chuva interminável.
Queria ter feito travessuras
ido dormir assustada, sentindo o peso e o aroma das cobertas.
(sua mão).


E nas febres de criança
nos delírios e calores
nos arrepios doloridos
chamá-la.
E ela viria doce (talvez só naquele dia)
E a compressa e seu corpo próximo
seria amor bastante.

Quem teria sido afinal,
se não existíssimos nós?
É em nós que ela existe.
Mas foi muitas outras.
Segredo.

Uma mulher, uma casa
uma casa e um jardim
e a eternidade.