quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Não quero nenhuma palavra que preste. Procuro a outra, mais suja de vida.

Viagem

Arranjei um segredo e uma fita vermelha.
Embrulhei toda a vida em um pedaço de pano.

Mandei matar a fome
mandei servir assada.

Mandei tomar um porre
mandei jogar pelada.

Mandei ouvir o vento
andar nu de madrugada.

Mandei voar sem asas
e cair em disparada.

Saí como rainha, em busca de quase nada.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A casa


A casa é janela aberta.
A casa é cama e coberta.
A casa garante o sono,
 conforto e calor no outono.

A casa é paz sem fim.
É tudo que sonhei pra mim.

A casa é um casulo estreito.
A casa é um seguro.
A casa é um abrigo, um esteio.
A casa é um muro.
Bem alto,  intransponível.
Só deixa ver o teto :
e o quarto escuro.

A casa é um caso sério.



terça-feira, 16 de julho de 2013

Receita




A fervura borbulha na cozinha.
A ebulição cá dentro, faz mais arruaça, no entanto.

Queima a comida enquanto não acerto o tempero,
entre a vida e o texto.

domingo, 23 de junho de 2013







Minas é o que oculta.
Um segredo guardado, contado baixinho, ao pé de ouvidos seculares.
Minas é o que se esconde. Talvez sob o que escrevo.
O que haverá por debaixo dessas montanhas, além de mim e do que sinto?
Minas.                         

Minas é tudo que não vejo.

(Texto publicado originalmente no blog http://orelogioavariado.blogspot.com.br/ de Ozias Filho)

sábado, 18 de maio de 2013

Álbum de família


Uma história se esconde por detrás do papel brilhante do álbum de fotografias,
encoberta mil anos pelo lustro dos sorrisos e dos abraços.
Ainda assim, há memórias quase invisíveis, não fossem as sombras nos negativos.

Não há vida que se mostre nos retratos, sempre estáticos.
Há uma cera, uma tinta, um batom, um salto, a roupa nova, o mar ao fundo.
A felicidade cristalizada nas mãos que se tocam, na brincadeira das crianças.

Capturada para sempre.

Benditas sejam as molduras que seguram outras verdades em dimensões proibidas.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Beleza

Acolho o dia como quem colhe uma flor
Como quem sorve aos poucos
o remédio amargo na pontinha da colher.
Lembrança de mãe, de febre quente.
O sol esturricando rancores,
Tostando os amores lá fora.

O dia murcha como a flor sem vida
enfeitando um copo qualquer.

Para essa dor sem cura não há remédio.
Recolho o que sobra de perfume e cor.
Há febre ainda em minhas mãos  frias.

Acolho a dor
e durmo em paz.
A manhã é nova
e a flor.



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Armadilhas

Cada falso passo,
Cada passo vão.

Cada vão em descompasso.

Para cada passo dado nesse
trepidado
            chão,
Preciso que me dê a sua mão.

A vida em linha reta, sem direção.
Apressado vou ao seu encalço.

Cadafalso