Pular para o conteúdo principal

Rosário

No alpendre de outra década -
um chalé: telhado de goteiras
e balaústres sem imponência -
vi uma flor de plástico.
Murcha.
Seu lilás desbotava debaixo da poeira
manchada por um chuvisco qualquer.
Parece que morria.

Comentários

  1. Ana,
    Gostei muito!
    Mesmo... e o que se segue seria escusado ;)
    Mesmo se o chuvisco me parece a mais, se incapaz de limpar a poeira e dar cor ao lilás. Mas... tanto faz, mostrou com emoção e visão como as flores de plástico também morrem...
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. O artificial, as tentaivas e descrição perfeita da natureza, as teorias em geral, a ciência, enfim... já nascem mortos.

    Não sei o porque exato, mas o perfume ao mesmo tempo intenso e inodoro da sua flor me remeteu a isso tudo minha cara Ana.

    ResponderExcluir
  3. Quisera eu ser poeta, quiado por meu "ID" (psicanaliticamente falando) sem contudo me causar transtornos... rs.
    Teorias a parte, adorei seu poema Ana.

    ResponderExcluir
  4. "vi uma flor de plástico.
    Murcha."

    essa passagem me atingiu como uma flecha.
    uma ferida de morte.

    abraço!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

História de avó

Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
Nós não somos o que fomos. Somos aquilo que ficou de nós e se perpetua.
Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
A mulher que está nas filhas a mãe que está nas filhas a avó o exemplo
Sua humanidade tão latente pulsa na falta do colo, no olhar duro, na palavra calada e que por isso ecoa ainda hoje.
A mãe que foi a mãe que queriam.
A mulher que queria ser e a que não teve escolha.
Quem há de saber se chorou? O quanto amou? Se foi feliz? Se fez o que quis Se não quis.
Ela são muitas. Quem saberá contá-las? E quem sou eu para dizê-las?
Sei dizer da que ficou. Da quitanda fresca e cheirosa do fogão vivo do trabalho Sei falar do vestido novo das tramas do bordado dos nozinhos do crochê (quem me dera saber dos pensamentos que os teceram)
Sei falar das palavras que os filhos lhe adivinharam e agora proferem. Sei falar dos dons herdados dos recheios, da mesa farta, da família em volta das colchas, dos botões, das …

A tela

Dentro da tela, a tela
e atrás.
antes e depois do olho.
do meu olho,
do seu olhar.

Quantas são todos os dias?
O que me veem?
te falo, me fala, nos fala, falamos dela.
No almoço
no copo de café
enquanto durmo, ao meu lado ressona, sussurra imagens deslizantes loucamente coloridas que me invadem os ouvidos, os sentidos
Que sentido faz?

Que sentido faz,
se a tela me ocupa o colo do filho
que mama os flashs loucos desvirtuados?
E não me cobra mais meus mimos?

Ela me faz companhia
me distrai na insônia
me desperta de manhã
É meu espelho
meu guru.
É meu guri.

Foi feita para bastar-se-me.

Mas eu vejo um buraco negro ameaçando essa relação.