sábado, 24 de setembro de 2011

Provável resposta a uma pergunta de criança

Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho.
Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá  os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação.
Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lugar.
Insatisfeita com a resposta, contrariando as teorias da infância que prometem que uma resposta simples é suficiente para a criança satisfazer sua curiosidade imediata, não sendo necessário explicações complicadas e prolongadas, questionou-me com uma seriedade atípica para uma criança de sua idade: Por que não batem o sino pelos nascimentos?
Senti-me ferida de morte. Por que, do alto da minha experiência, e apesar dos longos anos de minha vida inteira, nunca pensei sobre isto? O dominó dos pensamentos associados foi inevitável.  O ritual da vida que termina é realmente algo a que se dá muito destaque. A cidade vive invariavelmente no, mínimo, três dias de luto para cada cidadão que se vai. Fiquei achando que gostamos mais de celebrar aquilo que nos mata. Anunciamos a plenos pulmões a morte, a violência, a corrupção, a miséria, os desatinos. Por que damos tão pouco espaço para a vida, para o sonho, para a arte e a beleza?
E aqui, desse lugar tão pequeno, posso anunciar não pelo sino da matriz, nem pela voz tradicional do locutor responsável, que minha cidade é igual ao resto do mundo: Seja pelo auto-falante da matriz ou pela internet, não cansamos de evidenciar a dor que nos consome, mesmo que haja alegrias nos rondando, sem que nos permitamos percebê-las. Sem mudar de itinerário nas reflexões percorridas até aqui, mas já saindo um pouco da rota, aproveito uma pausa para um pequeno aparte:  Aprendemos a dividir tudo em dois: bem e mal, vida e morte, culpa e prazer. Esquecemo-nos de que tudo é existência ou que a existência é um todo e que as coisas não se separam tão facilmente assim. Tornamo-nos seres duais, partidos, composto por partes opostas que não se  abrangem. E é  assim que vamos vendo o mundo e as pessoas.
Nascer e morrer. Duas pontas do mesmo fio. Duas pontas iguais, que se confundem no mesmo mistério. Enquanto não nos damos conta disso, e sabemos aproveitar com alegria o sabor de cada uma ou de ambas, permitamo-nos,  ao menos, bater mais sinos pela vida.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tocaia


A sentinela vigia,
mas não me vê.

Somente eu posso perceber o reflexo incerto da pedra fria.
Somente eu posso perceber o beco escuro atrás dessa rima besta.

A sentinela vigia,
mas não me vê.

Atiro.
E me despedaço.


                                                                                                                       Por mim  mesma. Ouro Preto - MG.

domingo, 11 de setembro de 2011

Carta de um passageiro que nunca será lida pela sua mãe

Querida mãe,

eu não volto para casa hoje,
tenho que voar nas asas pesadas do destino;
quem sabe amanhã quando ele à tua porta bater,
possamos nos reencontrar.
Mãe, diz à ela que não vamos nos casar,
que as lágrimas hão-de pingar todos os dias,
cada vez menos até ao doce olvidar;
as suas eu sei que vão escorrer sempre bem devagar,
pois não há cicatrizes que as detenham
e não existe divórcio no matrimónio materno
esta lágrima invisível, que não precisa de lenços,
que se mostra na ruga do verso
do verbo interrompido,
na falta de acção,
da impotente lágrima do transparente e rotundo não.
Mãe, não deixe que eu seja apenas um bilhete de identidade,
lápide com rosto oficial
desarrume o meu quarto,
pinte as paredes de amarelo;
que a luz entre,
que a poluição e o ruído se instalem,
convide os amigos, os meus e os seus,
mas fique a sós comigo apenas quando estiveres a sós contigo
afinal, o que mais somos
senão reflexo do nosso umbigo?
Cordão invisível do hereditário,
deus dos calabouços,
do olho por olho e do atirar a primeira pedra,
nunca o primeiro afecto ou o primeiro beijo.

Querida mãe,
por favor não responda a esta carta.

com amor, para sempre... seu filho

(texto escrito em 11 de Setembro de 2001, poucas horas depois
do atentado às Torres Gêmeas, de Ozias Filho, inédito)


GUERRA SANTA

Para garantir um lugar no céu
e gozar da vida eterna,
em nome de Deus
Instala-se
o inferno aqui na terra
?

Ana Ribeiro

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Volto à estaca zero
toda vez que apago uma linha.

O sentimento se veste, mas desiste.
Em dúvida, me pergunta se deve usar preto,
acessórios,
se o amarelo combina  com esse clima tão frio.
Me pede a roupa emprestada.
Dou palpites, digo que está ótimo assim.

Mas o que sinto é caprichoso
Faz birra e volta para a cama.
Hoje não vai sair.

Enquanto isso...
fico eu aqui.

A poesia espera demais de mim.