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Mostrando postagens de Setembro, 2011

Provável resposta a uma pergunta de criança

Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho. Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá  os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação. Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lug…

Tocaia

A sentinela vigia,
mas não me vê.

Somente eu posso perceber o reflexo incerto da pedra fria.
Somente eu posso perceber o beco escuro atrás dessa rima besta.

A sentinela vigia,
mas não me vê.

Atiro.
E me despedaço.


   Por mim  mesma. Ouro Preto - MG.

Carta de um passageiro que nunca será lida pela sua mãe

Querida mãe,

eu não volto para casa hoje,
tenho que voar nas asas pesadas do destino;
quem sabe amanhã quando ele à tua porta bater,
possamos nos reencontrar.
Mãe, diz à ela que não vamos nos casar,
que as lágrimas hão-de pingar todos os dias,
cada vez menos até ao doce olvidar;
as suas eu sei que vão escorrer sempre bem devagar,
pois não há cicatrizes que as detenham
e não existe divórcio no matrimónio materno
esta lágrima invisível, que não precisa de lenços,
que se mostra na ruga do verso
do verbo interrompido,
na falta de acção,
da impotente lágrima do transparente e rotundo não.
Mãe, não deixe que eu seja apenas um bilhete de identidade,
lápide com rosto oficial
desarrume o meu quarto,
pinte as paredes de amarelo;
que a luz entre,
que a poluição e o ruído se instalem,
convide os amigos, os meus e os seus,
mas fique a sós comigo apenas quando estiveres a sós contigo
afinal, o que mais somos
senão reflexo do nosso umbigo?
Cordão invisível do hereditário,
deus dos calabouços,
do olh…
Volto à estaca zero
toda vez que apago uma linha.

O sentimento se veste, mas desiste.
Em dúvida, me pergunta se deve usar preto,
acessórios,
se o amarelo combina  com esse clima tão frio.
Me pede a roupa emprestada.
Dou palpites, digo que está ótimo assim.

Mas o que sinto é caprichoso
Faz birra e volta para a cama.
Hoje não vai sair.

Enquanto isso...
fico eu aqui.

A poesia espera demais de mim.