Pular para o conteúdo principal

Infância em todos os sentidos


O cheiro da terra molhada, do perfume da tia, da merenda do pré. O cheiro do carburador da Brasília, da laranja cravo, da venda do Zé. A fragrância da amiga da escola, do bolinho de chuva, do mimeógrafo. O cheiro da acetona da irmã vaidosa, do quarto de despejo. O cheiro da fazenda. O olhar doce da mãe, o olhar bravo do pai. O olhar orgulhoso do pai, repreensivo da mãe. O crepúsculo aos pés do Rosário. O olhar ciumento da irmã, o admirar auspicioso da avó. O olhar zombeteiro do melhor amigo. O beijo na mãe, aperto de mão dos colegas, o abraço na amiga, mão no ombro, lado a lado. O barulho da chuva forte na janela, o ronco estridente do motor da Brasília, a barafunda da pipa com o vento, a voz aveludada da tia, o grito da irmã caçula, a música alta no rádio  da vizinha, o canto do canário belga na porta da cozinha, a risada da irmã do meio, o tilintar do sino pascal. O som da igreja cheia, as ordens do irmão mais velho, a campainha esperada da escola, o grito de gol. O gosto amargo da gripe em dias de festa, o sabor do almoço de domingo, o primeiro beijo, a laranja azeda do quintal de casa, a dipirona pra febre, a torta tradicional, a sopa de fubá da cantina, os primeiros goles de cachaça na rua...

Comentários

  1. parabéns... muito bom e imagético o texto! quase que podemos tocar em cada cena, fragmentos de muitas infâncias parecidas... a ordem dos factores pode não ser a mesma... mas revemo-nos no enredo.

    ResponderExcluir
  2. só ums pergunta: Tiago Taciano é algum heterônimo de Ana Ribeiro?

    ResponderExcluir
  3. Cara Ana! És uma bela descoberta. A tua viagem, lembrou-me Agostinho: "não existe passado, presente ou futuro; o que existe é o passado presente, o presente presente e o futuro presente!
    Um bom abraço e felizes sinais e sintomas!!!!!! No presente!!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

História de avó

Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
Nós não somos o que fomos. Somos aquilo que ficou de nós e se perpetua.
Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
A mulher que está nas filhas a mãe que está nas filhas a avó o exemplo
Sua humanidade tão latente pulsa na falta do colo, no olhar duro, na palavra calada e que por isso ecoa ainda hoje.
A mãe que foi a mãe que queriam.
A mulher que queria ser e a que não teve escolha.
Quem há de saber se chorou? O quanto amou? Se foi feliz? Se fez o que quis Se não quis.
Ela são muitas. Quem saberá contá-las? E quem sou eu para dizê-las?
Sei dizer da que ficou. Da quitanda fresca e cheirosa do fogão vivo do trabalho Sei falar do vestido novo das tramas do bordado dos nozinhos do crochê (quem me dera saber dos pensamentos que os teceram)
Sei falar das palavras que os filhos lhe adivinharam e agora proferem. Sei falar dos dons herdados dos recheios, da mesa farta, da família em volta das colchas, dos botões, das …

A tela

Dentro da tela, a tela
e atrás.
antes e depois do olho.
do meu olho,
do seu olhar.

Quantas são todos os dias?
O que me veem?
te falo, me fala, nos fala, falamos dela.
No almoço
no copo de café
enquanto durmo, ao meu lado ressona, sussurra imagens deslizantes loucamente coloridas que me invadem os ouvidos, os sentidos
Que sentido faz?

Que sentido faz,
se a tela me ocupa o colo do filho
que mama os flashs loucos desvirtuados?
E não me cobra mais meus mimos?

Ela me faz companhia
me distrai na insônia
me desperta de manhã
É meu espelho
meu guru.
É meu guri.

Foi feita para bastar-se-me.

Mas eu vejo um buraco negro ameaçando essa relação.