Pular para o conteúdo principal

Voyeur Parte II


A câmera, a luz, um click.
Nada escapa aos olhos: velozes e furiosos.
Na tela, no vídeo
Na ponta da sonda
No catéter.
A biópsia e autópsia.

Raio X, ultra som
o laser.
tomografia, cintilografia, ressonância.
Magnética é a imagem que acena.
Que entra em cena. Que encena
Imagem cênica, performática. Atrai e engana. Trai.

O homem e suas intermináveis invenções. Subtrai-se de suas vestes, de sua pele, de sua superfície. Desdobra-se expondo-se todo, pulverizando o segredo privado  que, guardado a sete chaves, mostra-se escancaradamente e não choca. Não mais do que durante aquele segundo em que as cortinas se abrem. Não há mais segredo. O segredo não faz mais sentido. Um eu que não se mostra é um eu que não existe.

O homem é sua própria imagem.
Olha para si e não se vê.
Instrumentaliza-se. Equipado sai em busca.
Plásticas, lipos, peelings.
Próteses.
Não há photoshop que mascare sua dor. A dor incansável de buscar o invisível. Aquilo que se ausenta da célula - milhares de vezes ampliada - , que foge do olho físico ou mecânico. Onde a sonda não alcança.


Porque não se vê, mostra-se. Nu. Do avesso.
É todo fora. Não há mais dentro que não se veja.
Estamos expostos. Para sempre expostos. Ao médico. Ao público.
O público e o médico: degustadores esfomeados deliciam-se  com o íntimo, o intrínseco. À mercê dos olhos  que nos vigiam de todos os lados. Os olhos dos outros e aqueles instalados por nós mesmos.

Exausto, o ouço (o homem ) segredar:
- Os olhos,
Fechá-los-ei um dia.
Espero descansar e não ser
exumado de mim.

Comentários

  1. "Só quem se mostra é capaz de se encontrar, por mais que se perca no caminho". Já dizia Cazuza...
    Mas que dói, dói!

    ResponderExcluir
  2. A dor que se ausenta da célula - mesmo milhares de vezes ampliada, aonde a sonda não alcança, a palavra alcança...A palavra tem o poder de desencader reações químicas, moleculares lá dentro e gerar uma transformação.
    Tem consciência do seu poder, Ana?
    Abraços
    Gisela

    ResponderExcluir
  3. o homem sim, é sua própria imagem e por vezes sua própria é uma coleção de erros

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

História de avó

Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
Nós não somos o que fomos. Somos aquilo que ficou de nós e se perpetua.
Uma mulher, uma casa uma casa e um jardim e a eternidade.
A mulher que está nas filhas a mãe que está nas filhas a avó o exemplo
Sua humanidade tão latente pulsa na falta do colo, no olhar duro, na palavra calada e que por isso ecoa ainda hoje.
A mãe que foi a mãe que queriam.
A mulher que queria ser e a que não teve escolha.
Quem há de saber se chorou? O quanto amou? Se foi feliz? Se fez o que quis Se não quis.
Ela são muitas. Quem saberá contá-las? E quem sou eu para dizê-las?
Sei dizer da que ficou. Da quitanda fresca e cheirosa do fogão vivo do trabalho Sei falar do vestido novo das tramas do bordado dos nozinhos do crochê (quem me dera saber dos pensamentos que os teceram)
Sei falar das palavras que os filhos lhe adivinharam e agora proferem. Sei falar dos dons herdados dos recheios, da mesa farta, da família em volta das colchas, dos botões, das …

Crônica para o dia das mães

Esta é uma história de ficção. Para continuar até o fim, você precisa tirar seu pezinho da realidade, aguçar as forças imaginativas de sua mente e postar-se diante do texto como quem vai ler um conto fantástico. A personagem criada aqui é tão inverossímel quanto o leão de Nárnia. Não se assuste se sentir piedade ou pavor diante dela. São sentimentos comumente relatados. No mais, seja sensata, leitora (ou leitor) e evite pensar que existe em você alguma característica desse ser tão improvável. É apenas um efeito ilusório, sem fundamento real possível.
Há muito tempo atrás, nos primórdios da humanidade, existiu uma criatura hoje extinta, graças ao longo processo evolutivo pelo qual passaram homens e mulheres. Era uma fêmea. As crias do homem saíam do seu corpo, de uma forma extremamente dolorida, depois de nove meses crescendo dentro dela. Retirá-las de maneira menos cruel era considerado uma aberração e a prática do parto natural, assim como o hábito de exames terríveis, era incentiva…