sábado, 17 de dezembro de 2011

Sobre laços e nós

Estreitos são os laços frouxos que nos arrematam.
Desembainhados, soltam franjas gastas que se pulverizam e se prendem incomodamente nas vestes, nos cabelos, no velho tapete da sala.
A cor ainda é bonita, mas há um insuportável cheiro de mofo sobre manchas desbotadas aqui e acolá.
O nó é forte, entretanto.
E se finge de enfeite.
Um enfeite murcho sobre um vestido velho.
Não há beleza. 
Delicada pressão sobre  uma cintura antiga. E infinitamente mais larga. Apenas isto. Velhos laços estreitam os nós que nos prendem.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Antigamente...


Deu a mão.
E todos os dias
Entrega a outra face.

Sina de mulher?

Atire a primeira pedra quem não viu um caso assim.
Ainda hoje
E bem aqui.







domingo, 27 de novembro de 2011

Perdi o fio
como uma faca velha perdida na gaveta.

Não faço medo.
Nem tampouco cumpro meu destino.

Rasgo a carne dolorosamente, demoradamente
Cega. Imprecisa.

No entanto,
peso no braço que me segura
Sem direção,
corto a mão.

Sigo um instinto nato que não se perdeu no tempo.
Golpeio o ar, sem rumo
Mantenho o punho fora do prumo

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fakelook

Corro para pensar no que estou pensando agora
e publicar uma frase rasa nesse meu rosto fantasmagórico que se mostra em um espelho descascado.
Daqueles mesmo, manchados pela falta do reflexo. E do uso excessivo e demorado.
Do outro lado dessa moldura vazia
ninguém repara.
As palavras são apenas maquiagem derretida no meio do dia sem calor.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

INSÔNIA




Há um cansaço antigo sobre todas as coisas novas.
De ombros rijos e vergados meu olhar percorre o mundo.
O estalido do  velho assoalho  ainda  me causa espanto.
O grito escapa antes mesmo do susto.
Há rugas flácidas encapsuladas nas faces novas dos outdoors.
Cá estou eu. Debaixo do mesmo sol.
A sombra é pouca.
Não há alívio para a sede que me consome.

sábado, 22 de outubro de 2011

A derrota de Hermes (Poesia inerme)



Tudo é pressa.
Nada para. Não há pousada pra alegria.

O tempo tem pernas curtas e  vai de trote para não atrasar.


Tudo é pressa. E essa luta me angustia.
Não há pousada para a alegria.

Ofegante, não acompanho
por mais que eu tente alcançar.

Foi só um flash o que eu acho ter visto.
Logo ali atrás.
Esta é uma era em que não se pode crer.
Tenho que ir.
Tenho que ir sem nunca chegar.

Tudo é pressa.
Essa luta me angustia.Não há pousada pra alegria

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ofício de poeta




O motivo se faz em sua própria ausência.
A poesia, às vezes, é um nada
que inunda vazios de cor
e ilumina meus cantos tão assombrados.
Ela sabe de cor meus avessos,
às vezes, tão intraduzíveis.

Motivo? Sigo procurando.
É um não estar aqui  o que me  move, constantemente.
Não há coisa, nem sentimento...

Há sim, um pressentimento, quase sempre onipotente
que se instala.
Eis o mote.
E mais nada.

domingo, 9 de outubro de 2011

Um poema de filha pra mãe

PRAZO DE ENTREGA
 O texto era para a terça.
Palavras encomendadas
Silêncio – foi o que a professora sugeriu
Ah! Se isso bastasse!
A mãe disse:
- Não dá assim, para racionalizar.
O amigo indicou um tema.
Rodopiando...
A caneta...
A cabeça...
Rabiscos
Sem mensagem alguma.
Eu chamei.
Ela não veio.
Exigi.
Ela não veio.
Subornei.
Riu de mim.
Desisti.
 (Olívia Monteiro - 3º lugar no FECBIA - evento realizado pelo Intstituto Auxiliadora - Rede Salesiana - de São João del Rei - Outubro de 2011)

sábado, 24 de setembro de 2011

Provável resposta a uma pergunta de criança

Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho.
Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá  os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação.
Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lugar.
Insatisfeita com a resposta, contrariando as teorias da infância que prometem que uma resposta simples é suficiente para a criança satisfazer sua curiosidade imediata, não sendo necessário explicações complicadas e prolongadas, questionou-me com uma seriedade atípica para uma criança de sua idade: Por que não batem o sino pelos nascimentos?
Senti-me ferida de morte. Por que, do alto da minha experiência, e apesar dos longos anos de minha vida inteira, nunca pensei sobre isto? O dominó dos pensamentos associados foi inevitável.  O ritual da vida que termina é realmente algo a que se dá muito destaque. A cidade vive invariavelmente no, mínimo, três dias de luto para cada cidadão que se vai. Fiquei achando que gostamos mais de celebrar aquilo que nos mata. Anunciamos a plenos pulmões a morte, a violência, a corrupção, a miséria, os desatinos. Por que damos tão pouco espaço para a vida, para o sonho, para a arte e a beleza?
E aqui, desse lugar tão pequeno, posso anunciar não pelo sino da matriz, nem pela voz tradicional do locutor responsável, que minha cidade é igual ao resto do mundo: Seja pelo auto-falante da matriz ou pela internet, não cansamos de evidenciar a dor que nos consome, mesmo que haja alegrias nos rondando, sem que nos permitamos percebê-las. Sem mudar de itinerário nas reflexões percorridas até aqui, mas já saindo um pouco da rota, aproveito uma pausa para um pequeno aparte:  Aprendemos a dividir tudo em dois: bem e mal, vida e morte, culpa e prazer. Esquecemo-nos de que tudo é existência ou que a existência é um todo e que as coisas não se separam tão facilmente assim. Tornamo-nos seres duais, partidos, composto por partes opostas que não se  abrangem. E é  assim que vamos vendo o mundo e as pessoas.
Nascer e morrer. Duas pontas do mesmo fio. Duas pontas iguais, que se confundem no mesmo mistério. Enquanto não nos damos conta disso, e sabemos aproveitar com alegria o sabor de cada uma ou de ambas, permitamo-nos,  ao menos, bater mais sinos pela vida.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tocaia


A sentinela vigia,
mas não me vê.

Somente eu posso perceber o reflexo incerto da pedra fria.
Somente eu posso perceber o beco escuro atrás dessa rima besta.

A sentinela vigia,
mas não me vê.

Atiro.
E me despedaço.


                                                                                                                       Por mim  mesma. Ouro Preto - MG.

domingo, 11 de setembro de 2011

Carta de um passageiro que nunca será lida pela sua mãe

Querida mãe,

eu não volto para casa hoje,
tenho que voar nas asas pesadas do destino;
quem sabe amanhã quando ele à tua porta bater,
possamos nos reencontrar.
Mãe, diz à ela que não vamos nos casar,
que as lágrimas hão-de pingar todos os dias,
cada vez menos até ao doce olvidar;
as suas eu sei que vão escorrer sempre bem devagar,
pois não há cicatrizes que as detenham
e não existe divórcio no matrimónio materno
esta lágrima invisível, que não precisa de lenços,
que se mostra na ruga do verso
do verbo interrompido,
na falta de acção,
da impotente lágrima do transparente e rotundo não.
Mãe, não deixe que eu seja apenas um bilhete de identidade,
lápide com rosto oficial
desarrume o meu quarto,
pinte as paredes de amarelo;
que a luz entre,
que a poluição e o ruído se instalem,
convide os amigos, os meus e os seus,
mas fique a sós comigo apenas quando estiveres a sós contigo
afinal, o que mais somos
senão reflexo do nosso umbigo?
Cordão invisível do hereditário,
deus dos calabouços,
do olho por olho e do atirar a primeira pedra,
nunca o primeiro afecto ou o primeiro beijo.

Querida mãe,
por favor não responda a esta carta.

com amor, para sempre... seu filho

(texto escrito em 11 de Setembro de 2001, poucas horas depois
do atentado às Torres Gêmeas, de Ozias Filho, inédito)


GUERRA SANTA

Para garantir um lugar no céu
e gozar da vida eterna,
em nome de Deus
Instala-se
o inferno aqui na terra
?

Ana Ribeiro

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Volto à estaca zero
toda vez que apago uma linha.

O sentimento se veste, mas desiste.
Em dúvida, me pergunta se deve usar preto,
acessórios,
se o amarelo combina  com esse clima tão frio.
Me pede a roupa emprestada.
Dou palpites, digo que está ótimo assim.

Mas o que sinto é caprichoso
Faz birra e volta para a cama.
Hoje não vai sair.

Enquanto isso...
fico eu aqui.

A poesia espera demais de mim.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Desproporções




A poesia é densa,
nela cabe uma tristeza imensa.

A poesia é profunda
nela cabe toda a dor que me inunda.

A poesia, pequena cerzideira,
faz caber nela a história
de uma vida inteira.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

AGOSTO





Gosto desse agosto seco, ventoso
jogando na minha cara uma  poeira infértil,
obrigando-me a perceber o chão.
Gosto desse agosto
dos ipês que troçam da morte
infiltrados na aridez penosa, resquício de um inverno atroz,
que brilham antes do sol.
Gosto desse agosto
prévia da vida que novamente se instala
na primavera que ainda não veio.
Gosto desse agosto de entremeios,
dos maus presságios, 
do que não veio
De atmosfera enfumaçada ao entardecer
nem quente -  arrepio, nem frio,
da desgraça anunciada.
Sem nada merecer
do meu olhar.
Gosto desse agosto
que inevitavelmente me dá os ipês
tão diáfanos e breves.
Seu amarelo  transitório
é capaz de me alegrar pelo ano inteiro.
Gosto desse agosto sem cheiro.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DRIBLE


Por que o céu pesa tanto
na cor dos seus olhos?

E o tempo, essa raposa de olhos oblíquos,
me espreita nas dobras da sua pele.

Por que nascemos para amar
se morremos a cada instante?

Meu coração é vesgo,
mas sabe que o céu é cinza.
Meus olhos sentem
o que seu coração não vê.

Neste instante eu sou eterna.
E eu amo na eternidade do momento.
Você está aqui.
E o sonho agora,
é apenas,
Poesia.
Ana Ribeiro - 1993

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Brasília




Não caibo nessas tuas linhas retas.
Não me penduro nessas tuas asas.
Não me aventuro a trilhar essas tuas ruas tão perfeitas.
Sou mais profunda
e muito mais sombria.
Equilibro-me nessa plataforma lúdica de uma modernidade periférica.
Espalho-me por esse planalto de espaços... Descentralidades
que não me cabem.
Donde estou, não me reconheço em ti.
Espaço louco, espaço fálico
voa sobre tudo. Sobre o norte, sobre o sul do país.
Incita-me a amar. A ti.
Que não cabe em mim.
Que não cabe em si.
Onde estamos, que não nos vemos?
Tu aí, eu aqui.
Nessas asas mortas me debruço enfim. Em mim. Muito mais sombria, assim.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Eu: um delírio

Um ano sem  "moreno". In memorian reedito  esse poema homenagem.

Existir é absurdo.
Eu não existe mais - e o pão está na porta.
Eu não existe mais - e mais cinco refinarias construídas.
Eu não existe mais - e vão eleger novo presidente.
Eu não existe mais - e o sol está lá fora.
Eu não existe mais. Apenas ele agora. A terceira pessoa, referida. Vista de fora. Apenas ele existe, a palavra oca e murcha, o verbo, o que restou do eu (que foi?) ele também já agonizante.
Existir é absurdo. A poesia é absurda.
Se ao menos planta, bicho,  corpo reincorporado na terra.
Mas, não. Gente. Absurdo. Lacuna indissolúvel para outros eus, enquanto forem.
Eu não existe mais.
Eu: um absurdo.
Para Renato (1964 - 2010)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Queixa

Há muito que as distâncias não separam
e que o tempo corre atrás dos homens.
Há muito que não há mais tarde, nem nunca
e que é impossível não estar só.
Há muito que te queria aqui, mas já vais longe.
As palavras jazem no olvido...
Bastam os olhos. Escutar não faz mais sentido.
Essa é a era do tombo.
Quem vai curar meus joelhos?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Piedadezinha Qualquer


A saudade tem itinerário. Som, sabor, cheiro.
A saudade tem um rosto imaginário, e fala com língua própria.
Na cidadezinha, Piedadezinha de que agora me lembro, habitavam seres que somente posso avistar quando recordo seus odores, e se minha língua roça a textura das rosquinhas, do pão de queijo, da rosca de fermento, do biscoito de polvilho que escuto desmanchar-se junto com  minha saliva  e a chuva no telhado  a embalar meu sono nas noites sem luz elétrica.  Meus olhos me traem e de suas imagens, e de seus nomes, somente me recordo, naquele sotaque próprio daquelezinho meu lugar.
Padrintião, Tialica, Bastião Jorge, Samaria, Fuso, Padijair: somente podem continuar existindo porque se tornaram palavras. Essas pessoas só existem assim, com esses nomes. Minha lembrança só os compreende e os reconstrói se chamados assim. É a língua que minha memória fala e que meu presente entende.
A farmácia do Sô Taíde, com seus tubos, vidrinhos, vidrões, líquidos coloridos que mais pareciam poções mágicas.
Na esquina da “rua do meio”, a venda do Totonho. Pasmem: O Bataclã. Ainda sinto o cheiro do açúcar exposto em um saco umedecido e melado,  enrolado na boca, aroma que se misturava ao do café moído na hora, do fumo de rolo e da cachaça. No Bataclã se achava de tudo: até calcinha para menina moça.
Do outro lado, logo em frente, a grande loja do Zé Sirvino com seus balcões imponentes, piso de granito, seus tecidos e sapatos maravilhosos. A meus olhos de criança, um pedaço da cidade grande ali, tão deslocado. A entrada do porão, fechada com portão de vidro gradeado, sob o degrau da porta da frente da loja, mexia com minha imaginação. Sempre quis enxergar através do vidro fosco em que dimensão ia dar aquela passagem. A construção de dois andares parecia um palácio - rodeada por  casinhas já envelhecidas, desbotadinhas - naquela pequena vila, com suas ruas empoeiradas que desciam em desvãos imensos e acabavam em planícies gramadas, onde eventualmente se armava uma tenda de circo. E aí  era festa. A festa da minha noite de criança que só nesses dias podia durar até nove horas.
A casa grande da Marinácia, quitandeira de primeira e seu marido prático, Gerado'Stevo, de quem me lembro em meus delírios febris da infância. A injeção guardada no estojo de aço inoxidável, cujas agulhas eram esterilizadas na hora do uso em água de fervura. Com seus  óculos na ponta do nariz empurrava o tenebroso e enorme êmbulo para tirar o ar do percurso que o remédio faria. E já me doía uma dor antecipada por saber que não conseguiria escapar dos pulsos fortes do pai que me segurava.
A casa grande da Marinácia, em cuja calçada de pedra nos sentávamos à sombra, para fugir do sol do meio dia, após uma travessura qualquer e víamos passar tantos personagens que hoje me parecem mais figuras saídas de contos de fadas: Maneluca, Zico, Bitota... Paraná, Tião Pachola, Arcidi (Alcides) pé-de-pato... figuras encantadas, que viveram e morreram como quiseram, fazendo inveja aos lúcidos e justos e sérios. Há sempre Manelucas, Zicos, Bitotas, perambulando por essas antigas novas ruas de qualquer cidadezinha qualquer.
Posso sentir agora esses mesmos cheiros, o gosto quente da broa de fubá saindo do forno nas manhãs de sábado, o alto-falante  da igreja que já queria substituir o sino, me acordando nas manhãs de domingo, e eles me ajudam a  mapear esses caminhos que já não existem.
Corro para me sentar de novo naquelas pedras, nas pedras enormes da casa grande e fugir do presente cintilante que me cega a lembrança. A casa não está mais lá. Construíram uma esquina na calçada dos meus sonhos.


terça-feira, 19 de julho de 2011

Desalento II

 
  Picasso - Mulher ao espelho


Não me levanto cedo, nem arrumo minha cama.
Não enfeito as meninas, nem ajeito seus cabelos.
Cozinho mal.
Não faço faxina aos sábados, nem arrumo minhas gavetas.
Embora sinta muita vontade. De sentir vontade, talvez?
Pinto minhas unhas de vermelho, mas só de vez em quando.
Quase nunca aliso os cabelos... Minha boca é pálida.
O pior é que não sinto o que deveria.
O pior é que não sinto o que deveria.
Nem avental, nem um longo glamouroso. Nem o uniforme, ou o que quer que seja.
O melhor é que não sinto o que deveria.
Torno-me uma a cada dia. Mas passa.

Às vezes me canso de escrever também.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ladainha

Tudo que eu digo já foi dito
milhares de bocas, de ouvidos, de sentidos, há séculos ecoam na minha voz.
Minhas palavras estão cobertas por uma poeira milenar.
Não há novidade em mim.
Repito e perpetuo virtualmente
a rocha pré-histórica do pensamento.


Minha palavra é senil.
E definha.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

CORREDOR

A hora não passa no corredor
Também nós, não passamos juntos por ele.
Lado a lado não cabemos, nossas mãos não se tocam.
O corredor que me separa de você
tem quilômetros de extensão,
mas é por demais estreito.

Nossa casa é fria.
No corredor não entra luz.
Ele liga sala e quarto,
atravessa o quarto,
atravessa a cama...

Ontem,
antes de você se tornar tão estranho,
ocupávamos a casa toda
a cama toda.
Me esqueci do corredor dentro de mim
que me separa de mim mesma,
e de você.

A hora não passa no corredor,
mas coloca mais uma ruga em meu coração.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Pedagogia (Quero não, moça)

Uma escola para uma vida melhor
um trabalho para uma vida melhor
um carro para uma vida melhor
um telefone,
uma casa,
uma roupa
um cargo
um título
uma preferência
dinheiro
Para uma vida melhor, uma outra língua.


Precisa ser mais
precisa ter mais
precisa saber mais
precisa ser melhor
maior!

Uma vida melhor nunca é a minha.

Quero não, moça.

Para que dar tanta volta
se o que quero mesmo é um quintal com flores
o pôr do sol
meus pés e filhos no chão?
Carece não
perder tanto tempo.

Me deixe ir gostar do que tenho.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

São João del Rei

 
Torre barroca
Sagrado Lenheiro
teu incenso perturbador já me é familiar
embora não me reconstrua como um   cheiro de infãncia.
Impressionam-me esses olhos antigos
que semicerrados observam meus passos deslocados
por seus ladrilhos ainda sólidos.

É um olhar solene
para um novo estranho.

Impossível apreender-te em tua antiga novidade
que não se contenta em ser apenas velha.

Misturo-me.
Entre a buzina  e o angelus
o saber das pedras e dos homens
o sabor de tuas letras.

Entendo tua língua fronteiriça.
És como eu.

Foi preciso passar por aqui
para saber como as pedras
da minha mineira humanidade.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

DESALENTO

Afora as ondas,
não tenho experiência de mar.
Mas todos os dias eu barco vou em direção...
Meu horizonte é pétreo.
Iço e recolho as velas.
Faço água.
E não chego em terra.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Anomalias Evolutivas: Humandróides

Eu: andróide esquizofrênico.

Sou minhas próprias próteses.

O carro -  extensão das pernas
A lupa - extensão dos olhos
Do estômago - a panela.
O telefone para o ouvido
E conectado, totalmente: a tela.

Do medo, a unha arma
extensão do meu ódio, do meu receio.

Para cruzar a fronteira, a coleira
O abismo sem  frio na barriga: o limite seco
A queda em pleno voo.

Já não há liberdade nessas asas sem imensidão.

A palavra asa
rompe o casulo desajeitada, sem direção.

A palavra asa
fora do corpo ave
tomba, ferida no chão.

Já não há liberdade nessas asas sem imensidão.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Infância em todos os sentidos


O cheiro da terra molhada, do perfume da tia, da merenda do pré. O cheiro do carburador da Brasília, da laranja cravo, da venda do Zé. A fragrância da amiga da escola, do bolinho de chuva, do mimeógrafo. O cheiro da acetona da irmã vaidosa, do quarto de despejo. O cheiro da fazenda. O olhar doce da mãe, o olhar bravo do pai. O olhar orgulhoso do pai, repreensivo da mãe. O crepúsculo aos pés do Rosário. O olhar ciumento da irmã, o admirar auspicioso da avó. O olhar zombeteiro do melhor amigo. O beijo na mãe, aperto de mão dos colegas, o abraço na amiga, mão no ombro, lado a lado. O barulho da chuva forte na janela, o ronco estridente do motor da Brasília, a barafunda da pipa com o vento, a voz aveludada da tia, o grito da irmã caçula, a música alta no rádio  da vizinha, o canto do canário belga na porta da cozinha, a risada da irmã do meio, o tilintar do sino pascal. O som da igreja cheia, as ordens do irmão mais velho, a campainha esperada da escola, o grito de gol. O gosto amargo da gripe em dias de festa, o sabor do almoço de domingo, o primeiro beijo, a laranja azeda do quintal de casa, a dipirona pra febre, a torta tradicional, a sopa de fubá da cantina, os primeiros goles de cachaça na rua...

sábado, 11 de junho de 2011

Eu: um delírio II



A véspera é a pólvora.
O futuro do tempo é agora.
O movimento para lá é incessante
Um instante que eternamente se desintegra
se desintegra e se reelabora . 

O futuro já não tarda.
Está mesmo aqui agora.
Onde? Já se foi?
A palavra bala já atinge o alvo pronta.
Atravessa-o fluido já pingando, desfirme.

O que era porta, vira torta,  via aorta não retorna.
A véspera é a pólvora de pavio curto
que não se inflama
O futuro do tempo é agora.

Eu: um muro, uma ponte, uma corda.
Que não liga, não toca, não prende.
Eu: um elo que não se fecha,
elo sem corrente.

Minha inutilidade é patética.

O tempo: seus passados e futuros somente existem em mim
E eu sou só presente.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Voyeur Parte II


A câmera, a luz, um click.
Nada escapa aos olhos: velozes e furiosos.
Na tela, no vídeo
Na ponta da sonda
No catéter.
A biópsia e autópsia.

Raio X, ultra som
o laser.
tomografia, cintilografia, ressonância.
Magnética é a imagem que acena.
Que entra em cena. Que encena
Imagem cênica, performática. Atrai e engana. Trai.

O homem e suas intermináveis invenções. Subtrai-se de suas vestes, de sua pele, de sua superfície. Desdobra-se expondo-se todo, pulverizando o segredo privado  que, guardado a sete chaves, mostra-se escancaradamente e não choca. Não mais do que durante aquele segundo em que as cortinas se abrem. Não há mais segredo. O segredo não faz mais sentido. Um eu que não se mostra é um eu que não existe.

O homem é sua própria imagem.
Olha para si e não se vê.
Instrumentaliza-se. Equipado sai em busca.
Plásticas, lipos, peelings.
Próteses.
Não há photoshop que mascare sua dor. A dor incansável de buscar o invisível. Aquilo que se ausenta da célula - milhares de vezes ampliada - , que foge do olho físico ou mecânico. Onde a sonda não alcança.


Porque não se vê, mostra-se. Nu. Do avesso.
É todo fora. Não há mais dentro que não se veja.
Estamos expostos. Para sempre expostos. Ao médico. Ao público.
O público e o médico: degustadores esfomeados deliciam-se  com o íntimo, o intrínseco. À mercê dos olhos  que nos vigiam de todos os lados. Os olhos dos outros e aqueles instalados por nós mesmos.

Exausto, o ouço (o homem ) segredar:
- Os olhos,
Fechá-los-ei um dia.
Espero descansar e não ser
exumado de mim.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Voyeur


A perna, a anca, a virilha, o púbis
o umbigo, a coxa, a cintura, o seio,
o peito do pé, a veia da mão, os braços,
o dorso, o ombro, o glúteo, o rosto.
O rim, o fígado, bexiga, útero,
testículos, ovários, pulmões, vesícula
coração, intestino, estômago e cérebro
o baço, o pâncreas, o apêndice, o reto
o tálamo, a uretra, a íris, o tecido.
O feto.

O corpo exposto
Na pele do rosto
No dentro do osso.

É preciso ver tudo
a qualquer custo.

O olhar ávido atesta:
Basta-nos ver.
(Ver sem parar.)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

NO FUTURO




No futuro não viveremos em redomas, nem vestiremos roupas sintéticas, capacetes bizarros ou nos comunicaremos por telepatia.
Penso na evolução como uma espécie de retorno. 
Quanto mais sofisticados se tornarem nossos mecanismos cerebrais, mais nos tornaremos parecidos com nossos longínquos ancestrais.  Detalhe: Por opção.
Deixaremos de ser sedentários.
Estaremos em contato maior com a natureza.
Comeremos apenas para sobreviver.
Não poluiremos.
As teorias médicas e científicas mais modernas apontam esse "modus vivendi" como receita para uma vida longa e feliz.
Viveremos em bandos, cada vez menos isolados.
Vamos nos organizar segundo as necessidades do grupo e não segundo nossos próprios interesses.
Poderemos andar nus se quisermos.
Não consideraremos o outro um estranho inferior: porque é fêmea, ou macho,  ou porque não é fêmea nem macho; possui pêlos mais claros, ou  mais escuros, ou não os possui; não seremos  rejeitados, temidos, injustiçados, abandonados ou  violentados seja lá por que outro motivo estranho qualquer. 
Não haverá gênero ou raça ou dinheiro que nos torne desiguais por causa de nossas diferenças.
Raça nenhuma. Nenhum gênero. Senão o humano.
Dividiremos a terra e a água.
Procuraremos a cura na natureza.
Protegeremos nossa cria a qualquer custo.
Construiremos armas menos letais.
Baniremos as armas.
Deus será algo como o entrelaçamento entre eu e o universo.
Comungaremos com o universo mais uma vez. Porque escolhemos assim.
A única diferença que talvez  (talvez) exista entre nós mesmos e aquilo que a arqueologia de nossa história nos revela, será a consciência do amor que temos uns pelos outros.
Demoramos milênios para compreender o que estava bem diante do nosso nariz.
Estamos evoluindo?
Quem sabe.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

MEMÓRIA DAS COISAS

                                            

PEDRA, CASCALHO, ESCOMBRO, ESTILHAÇO.
CACO, MIGALHA, RESÍDUO, PEDAÇO.
FRAGMENTO,  POEIRA, FARELO, TRAPO.
TUDO SE REDUZ.
CINZA, PALHA, CISCO, CONCRETO.
EU, VOCÊ, LONGE E PERTO.
NADA NÃO EXISTE.
TUDO É RESTO.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

o Breu

A escuridão nos acolhe como um berço
Silencio que sussurra, aguça os sentidos, liberta a mente
O breu fala por si, impõe-se, contorna-nos.
O respiro sobe e os olhos vão às mãos
Cheira medo, descoberta, aflição, desejos
Provoca-nos vida, revida, susto!
Espreita-nos os calos, calo, mudo, refúgio.
O escuro engrandece qualquer centelha.
No preto a diferença se assemelha.
A maquilagem não diz mais nada
E o sorriso nasce antes na imaginação.

sábado, 26 de março de 2011

O retrato

De um lado da parede, a moldura antiga protegia a face jovem da menina. Olhos doces, expressão inocente. Seu vestido branco, parecia pintado pela imaginação do artista. Lábios sem sorriso insistiam em levar meus olhos para os da menina, recém nascida para a minha observação.   Lábios sem sorriso, que me levavam para dentro. Sem sorriso os lábios, os meus e os dela.
À sua esquerda, outra moldura. Seu marido, ainda moço, guardava-lhe o lado. Já seriam um casal naquele dia em que o retrato fora tirado? Em preto e branco, as figuras guardavam um quê de sonho.  De irrealidade. É certo que existiram. Foram mesmo marido e mulher. Tiveram filhos. Os mesmos que os penduraram ali. Sobre o aparador, guardiães póstumos da mesa de jantar.

Na outra parede, um porta-retrato  moderno juntava os dois. Agora ligados por um passo de valsa. Na foto colorida, o glamour de uma já longínqua noite de festa. Eram um casal agora . Um casal há mais de cinquenta anos. Os cabelos brancos dela. Os dele, nem tanto ainda. O olhar duro dela. A firmeza da mão que segurava a dele. Os lábios severos apertados, após o treino de uma vida para se tornar a mãe  que construiu o pai. E aquela casa. Onde teria se perdido aquele olhar doce da menina que me observava do outro lado? 

Os pares se olhavam. Não é possível saber se dali onde estavam podiam se reconhecer.
A sala era a  mesma. Que os viu de longe e de perto. Que os ouviu sussurrar, sorrir, chorar, ralhar com as crianças, oferecer doces e quitutes, ouvir das visitas as histórias de casamentos, doenças, falecimentos. A mesma sala. Que viu aqueles olhos se modificando junto com a vida. Teria sido feliz? Teriam sido felizes? Não há outra imagem unindo as duas pontas. Havia apenas a de antes, e aquela, de muito depois.

A sala agora emoldura seus rostos. E suas vidas. Ainda é guardiã do tempo. Aqueles rostos ainda guardam a mesa, ao redor da qual outras histórias foram sendo contadas. 
Há uma filha que não se casou. A memória lhe falta. Não reconhece mais seus semblantes. Eles a observam. Cantam para ela à noite. Embalam seu sono. Ela ri. Balbucia, cantarola, como se repetisse antigas parlendas.  Dança uma ciranda. Quem sabe não dançam com ela? As molduras do passado protegem seu passeio ininterrupto pela sala. Vigiam. Ela vai e volta. Seus olhos, cristalizados pelo tempo, a seguem sem parar, quem sabe, levando-a pela mão.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarta-feira de cinzas

 Fonte: torcedorcoral.com



Coloca-se novamente a máscara.
O rosto outra vez compenetrado. Pensamentos sem folia.
Alma de ressaca.

O bar da esquina tem apenas uma porta aberta.
É hora de varrer para fora o lixo das últimas risadas, agora esquecidas, despedaçadas, imóveis, espalhadas desfalecidas pelo chão.
Um bêbado na calçada insiste em segurar o instante. Inútil.

Rua suja.
De um jeito triste. Imóvel sujeira surda.
Alegria morta. O bêbado sorri.
É o limite.

Fiéis passam para a missa.
A música é outra.

Na boca ainda ébria da véspera
um sorriso samba mesmo assim.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

"EXISTIRMOS A QUE SERÁ QUE SE DESTINA?" (CAETANO VELOSO)

A existência de pessoas iluminadas como Moacyr Scliar, talvez seja uma boa resposta para pergunta tão angustiante.
Meu adeus pesaroso.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

THE LAST SURF ON THE SURFACE

 File:
open.

Um link
um click

um mega download

um vírus.

close! close!

close to death.

too close to death.

Delete.

File:
exit.

Ex it?

O link
Existe?

Click.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Identidade - como definida por Clarice Lispector

 Imagem: tempodesaturno.blogspot.com

"[...] O resto era o modo como pouco a pouco eu havia me transformado na pessoa que tem o meu nome. E acabei sendo o meu nome. [...] Cumpri cedo os deveres de meus sentidos, tive cedo e rapidamente dores e alegrias - para ficar depressa livre do meu destino humano menor? e ficar livre para buscar minha tragédia.
Minha tragédia estava em alguma parte. Onde estava o meu destino maior? um que não fosse apenas o enredo de minha vida. A tragédia - que é a aventura maior - nunca se realizara em mim. Só o meu destino pessoal era o que eu conhecia. E o que eu queria.
Em torno de mim espalho a tranquilidade que vem de se chegar a um grau de realização a ponto de  ser G.H. até nas valises. Também para a  minha chamada vida interior eu adotara sem sentir a minha reputação: eu me trato como as pessoas me tratam, sou aquilo que de mim os outros veem. Quando eu ficava sozinha não havia uma queda, havia apenas um grau a menos daquilo que eu era com os outros, e isso sempre foi a minha naturalidade e a minha saúde. E a minha espécie de beleza. Só meus retratos é que fotogravavam um abismo? um abismo.
Um abismo de nada. Só essa coisa grande e vazia: um abismo."
(LISPECTOR, C. A Paixão Segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 24-25.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tocaia



A sentinela vigia,
mas não me vê.

Somente eu posso perceber o reflexo incerto da pedra fria.
Somente eu posso perceber o beco escuro atrás dessa rima besta.

A sentinela vigia,
mas não me vê.

Atiro.
E me despedaço.


                                                                                                                       Por mim  mesma. Ouro Preto - MG.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Despedideira (Mia Couto) - vestígios rápidos

     ...Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.
     ...Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.
     Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: O que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que suja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
     ... Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada. Ninguém no plural. Ninguéns. (COUTO, M. A Despedideira in: COUTO, M.  O fio das missangas. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p. 51-54)
     

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

NONSENSE

Eu sempre ouvi:
um dia a casa cai.

Desde criança:
um dia é da caça o outro do caçador.

Antigamente:
quem com ferro fere com ferro será ferido
olho por olho dente por dente.

Parece o homem: lobo do homem,
em diálogo consigo mesmo.

Mas agora, é o barro que fala.

Quem quer ouvir?

O homem barro
enlameado até os dentes.

De volta à casa.
Para sempre ao pó.

A casa caiu.
Aos milhares.
E os dentes, e os olhos e o ferro.

O ditado velho ficou novo de novo.

A palavra gasta não serve mais.
É tarde para reconstruir.
Até mesmo os velhos discursos.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Navegar é preciso


No limiar revelador da mudança
Noite passa dia, todos os dias
Aurora tão longe do crepúsculo
E sonhos que fogem a realidade

As garças já não são as mesmas
quiçá os homens e suas crenças
Corrente forte, navio atracado
O mar convida sempre à avançar

Estações, flores, seca e chuva
Meu egotismo sobrevive soberbo
E estouros festejam o novo ano
Escuridão, luzes e tanta gente

Alento motriz de tantos tontos
Quem não se segura a oculta fé
Empacados mantêm nossos barcos
Esperança somente na bela maré