domingo, 26 de setembro de 2010

Provável resposta para uma pergunta de criança

Moro em uma cidade muito pequena. Dessas do interior, onde o avanço científico e tecnológico, por mais rapidamente que se teletransportem não chegaram a destronar velhas e muito peculiares tradições. Os falecimentos são ainda um acontecimento comunitário, assim como os casamentos, os desentendimentos, as paixões e as intrigas. Tudo é anunciado. Se não pela rádio, pelo olhar, pelo cochicho.
Pelos sinos e pelo auto-falante, se sabe das festas, dos velórios, dos achados e perdidos. No centro da praça principal, a igreja dá  os principais avisos: alegres ou fúnebres, com um fundo musical adequado à situação.
Um dia desses, avisaram via Matriz Santuário, mais um óbito. Minha filha pequena, curiosa e, talvez curiosa por demais, perguntou-me sobre o ocorrido. Queria saber o que estava sendo anunciado, de quem se tratava... Respondi como pude, introduzindo-a nesse momento, a mais um ritual da cultura local. Experiência que como outras semelhantes a tornaria, aos poucos, uma típica cidadã do lugar.
Insatisfeita com a resposta, contrariando as teorias da infância que prometem que uma resposta simples é suficiente para a criança satisfazer sua curiosidade imediata, não sendo necessário explicações complicadas e prolongadas, questionou-me com uma seriedade atípica para uma criança de sua idade: Por que não batem o sino pelos nascimentos?
Senti-me ferida de morte. Por que, do alto da minha experiência, e apesar dos longos anos de minha vida inteira, nunca pensei sobre isto? O dominó dos pensamentos associados foi inevitável.  O ritual da vida que termina é realmente algo a que se dá muito destaque. A cidade vive invariavelmente no, mínimo, três dias de luto para cada cidadão que se vai. Fiquei achando que gostamos mais de celebrar aquilo que nos mata. Anunciamos a plenos pulmões a morte, a violência, a corrupção, a miséria, os desatinos. Por que damos tão pouco espaço para a vida, para o sonho, para a arte e a beleza?
E aqui, desse lugar tão pequeno, posso anunciar não pelo sino da matriz, nem pela voz tradicional do locutor responsável, que minha cidade é igual ao resto do mundo: Seja pelo auto-falante da matriz ou pela internet, não cansamos de evidenciar a dor que nos consome, mesmo que haja alegrias nos rondando, sem que nos permitamos percebê-las. Sem mudar de itinerário nas reflexões percorridas até aqui, mas já saindo um pouco da rota, aproveito uma pausa para um pequeno aparte:  Aprendemos a dividir tudo em dois: bem e mal, vida e morte, culpa e prazer. Esquecemo-nos de que tudo é existência ou que a existência é um todo e que as coisas não se separam tão facilmente assim. Tornamo-nos seres duais, partidos, composto por partes opostas que não se  abrangem. E é  assim que vamos vendo o mundo e as pessoas.
Nascer e morrer. Duas pontas do mesmo fio. Duas pontas iguais, que se confundem no mesmo mistério. Enquanto não nos damos conta disso, e sabemos aproveitar com alegria o sabor de cada uma ou de ambas, permitamo-nos,  ao menos, bater mais sinos pela vida.

sábado, 25 de setembro de 2010

ATOPIA

Cansado do itinerário tão variável e intenso
o cosmopolita sem rota descansa.
Os pés e a vista não têm chão nem horizonte certo
O lar perdido entre o monte ereto, o deserto reto, a noite sem fim.
O dia começa e lá está ele. Estático e cansado. O movimento sem fim da viagem eterna o persegue entretanto. Onde é seu lugar?
A memória não traz um cheiro peculiar. A infância não tem o quintal sagrado.
O que o habita é o mundo. Sem cercas, nem muros, nem nada.
No entanto, está proibido de entrar,
no mundo que é seu. No mundo do outro.
Cidadão sem pátria,
não entende o véu. Nem a tinta no rosto, nem as mãos postas em prece, nem a tanga ou o terno.
O mal do outro é eterno.
Dentro da casa, ou depois da cerca,
o mal do outro é eterno.
Miseravelmente, o cidadão universal esbarra na sua própria sina.
Sua pátria sem fronteiras não tem chão para um coração que nasceu aqui e viajou.
É preciso não nascer aqui.
Aqui não existe mais. Apenas sua cicatriz, em carne viva,
não o deixa descansar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Não leia, porque não e3screvii

Enquanto espero, aperto as teclas sem pensar muito. Permito que os dedos corram, escorreguem, se esbarrem na estreita fileira de letras que se espalham  por debaixo da palma da minha mão. A poesia coça. Roça a pele fina das falanges. Não se mostra inteira. O pulso já dormente, solta palavras, que são apenas palavras. Não dizem. Ao menos, não dizem para mim. Queria dizer ao e os dedos teclam ai, repetem letras, pulam outras e, ao não sair, a palavra vira ai. Ai...ai... ai....Que texto besta. A mão não é a cabeça. Ou é? Onde está a palavra? Onde está a palavra que quero? Onde está a palavra que busco? O dedo não acha. As letras sobram onde as palavras faltam. Hoje não deu. O texto não foi. Entretanto, ei-lo aqui. Outro. Mas ei-lo aqui.